Curso de Especialização Interdisciplinar em Adolescência

FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS /CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO  /   CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO INTERDISCIPLINAR  EM ADOLESCÊNCIA
Coordenadora do Curso: Marília de Freitas Maakaroun – Médica, Doutora em Medicina da Criança e do Adolescente, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Professora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.Telefones: (31) 3286 2023  -  3286 3067   Fax.: 3286 7837    mfm01@terra.com.br
FULIBAN: (31) 3221-9656
 
OBJETIVO GERAL:Capacitar recursos humanos para trabalhar com adolescentes, segundo o paradigma da atenção integral e da interdisciplinaridade./Desenvolver pesquisas para maior aprofundamento no conhecimento desta faixa etária./Criar serviços de atenção aos adolescentes, de forma que eles possam ser acolhidos no ambulatório, na escola, na rua, nos serviços de urgência com dignidade e garantia de direitos.
Programa Teórico básico:INTERDISCIPLINARIDADE: NOVO PARADIGMA PARA A COMPREENSÃO DO SER HUMANO  /Bioética/ Filosofia da Ciência/Filosofia do Desenvolvimento Humano/Metodologia de  pesquisa Científica/ Metodologia do ensino superior/Tópico de Saúde e Educação/ Desenvolvimento somático e endocrinológico do Adolescente/ Sexualidade do dolescente/Gravidez/DST-AIDS/
relações pedagógicas
/
Desenvolvimento  Psicológico/Discurso Corporal do adolescente /Desenvolvimento Cognitivo, Social e suas vicissitudes/Transtornos Orgânicos e psicossociais/ Leitura crítica da Literatura Científica / Discussão de casos.
Programa Prático: Ambulatório da Fuliban
Público alvo: Profissionais de nível superior que trabalham com crianças e adolescentes.
Número de vagas: 20
Carga Horária: 360 horas
Início: março de 2009.

Datas e horários:

Todos os segundos finais de semana do mês, aos sábados e domingos.

Sábados : de 13 às 18 horas

Domingos: de 8 às 12 horas.

Duração: 12 meses.

Local das aulas: Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67,  4º andar  - Cruzeiro

Telefones: (31) 3221 9656 - 3223 2855 -fuliban@.com.br

Informações:

Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67

4º andar  - Cruzeiro - Telefones: (31) 3221 9656  - (31) 3223 2855     fuliban@uol.com.br

Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais: Centro de Pesquisa e Pós-graduação – Alameda Ezequiel Dias, 275 – 2º andar

Santa Efigênia – Belo Horizonte – MG – 30.130-110

Telefones: (31) 3248  7155 – 3248 7156 – 3248 7157 – .

 Inscrições:

Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67

4º andar  - Cruzeiro - Telefones: (31) 3221 9656  -  3223 2855
fuliban@fuliban.org.br

Valor:
Taxa de inscrição: R$ 50,00 Mensalidades: 12 parcelas de R$350,00

FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS / CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO 

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO  EM SAÚDE MENTAL DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIACoordenadora do Curso: Marília de Freitas Maakaroun – Médica, Doutora em Medicina da Criança e do Adolescente, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Professora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.Telefones: (31) 3286-2023  -  3286-3067   e-mail: mfm01@terra.com.br

OBJETIVO GERAL:

Capacitar profissionais, que trabalham com crianças e adolescentes, nas áreas de desenvolvimento, neuropsicologia e psicopatologia. Programa Teórico básico:4Interdisciplinaridade: Novo paradigma para a compreensão do ser humano.4Desenvolvimento psicológico e neurológico normal da criança e do adolescente.4Bases neurológicas do desenvolvimento e plasticidade cerebral.4Vicissitudes do desenvolvimento neurológico, cognitivo, afetivo, e social da criança e do adolescente.4Psicofarmacologia4 Discussão de casos/ Ética no exercício profissional.4Trabalho de MonografiaPúblico alvo: Profissionais de nível superior que trabalham com crianças e adolescentes.Número de vagas: 20Carga Horária: 360 horasInício: fevereiro de 2009 Programa Prático:

Ambulatório da Fuliban

Duração: 24 meses.

 

Datas e horários: Todos os últimos sábados e domingos do mês.

Sábado: de 13 às 18 horas.

Domingo: de 8 às 12 horas.

Local das aulas: Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67,  4º andar  - Cruzeiro

Telefones: (31) 3221-9656 - 3223-2855 -fuliban@uol.com.br

Informações:

4Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67,  4º andar  - Cruzeiro

Telefones: (31) 3221-9656 - 3223-2855

4Centro de Pesquisa e Pós-graduação – CPG – FCMMG -Alameda Ezequiel Dias, 275 – 2º andar

Santa Efigênia – Belo Horizonte – MG – 30.130-110

cpg@feluma.org.brTelefones: (31) 3248-7155 – 3248-7156  3248-7157.

Inscrições:

Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67

4º andar  - Cruzeiro-  

 Belo Horizonte  -   MG

Telefones: (31) 3221-9656  -  3223-2855fuliban@uol.com.br

Valor:

Taxa de inscrição: R$ 50,00 Mensalidades: 24 parcelas de R$350,00

 

 

 

 

Curso de especialização em Saúde Mental de Crianças e Adolescentes

FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS / CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO 

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO  EM SAÚDE MENTAL DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA
Coordenadora do Curso: Marília de Freitas Maakaroun – Médica, Doutora em Medicina da Criança e do Adolescente, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Professora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.Telefones: (31) 3286-2023  -  3286-3067  
e-mail: mfm01@terra.com.br 

OBJETIVO GERAL:Capacitar profissionais, que trabalham com crianças e adolescentes, nas áreas de desenvolvimento, neuropsicologia e psicopatologia.
PROGRAMA BÁSICO DO CURSO:4Interdisciplinaridade: Novo paradigma para a compreensão do ser humano.4Desenvolvimento psicológico e neurológico normal da criança e do adolescente.4Bases neurológicas do desenvolvimento e plasticidade cerebral.4Vicissitudes do desenvolvimento neurológico, cognitivo, afetivo, e social da criança e do adolescente.4Psicofarmacologia4 Discussão de casos/ Ética no exercício profissional.4Trabalho de Monografia
Público alvo: Profissionais de nível superior que trabalham com crianças e adolescentes.
Número de vagas: 20
Carga Horária: 360 horas
Início: fevereiro de 2009
Programa Prático:
Ambulatório da Fuliban
Duração: 24 meses.

Datas e horários: Todos os últimos sábados e domingos do mês.

Sábado: de 13 às 18 horas.

Domingo: de 8 às 12 horas.

Local das aulas: Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67,  4º andar  - Cruzeiro

Telefones: (31) 3221-9656 - 3223-2855 -fuliban@uol.com.br

Informações:

4Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67,  4º andar  - Cruzeiro

Telefones: (31) 3221-9656 - 3223-2855

4Centro de Pesquisa e Pós-graduação – CPG – FCMMG -Alameda Ezequiel Dias, 275 – 2º andar

Santa Efigênia – Belo Horizonte – MG – 30.130-110

cpg@feluma.org.brTelefones: (31) 3248-7155 – 3248-7156  3248-7157.

Inscrições:

Fuliban -  Rua Tomé de Souza, 67

4º andar  - Cruzeiro-  

 Belo Horizonte  -   MG

Telefones: (31) 3221-9656  -  3223-2855   / fuliban@uol.com.br

Valor:

Taxa de inscrição: R$ 50,00
Mensalidades: 24 parcelas de R$350,00

SEXUALIDADE E RELAÇÕES DE GÊNERO

Marília de Freitas Maakaroun (organizadora)*

“É quando vamos além do instinto
 que parecemos mais idiossincraticamente humanos”.
Ridley, M. “O que nos faz humanos”,2004.(15)

Introdução:
Desde que os seres humanos adquiriram a “consciência reflexiva”, deixaram o reino exclusivo da natureza, e se inseriram, definitivamente, no reino da cultura. Nesse contexto, a “sexualidade e suas vicissitudes“ também perderam a naturalidade do determinismo biológico e se tornaram fenômenos sociais, culturais e históricos. 

 O andar bípede, uma das características peculiares da nossa espécie surgiu há aproximadamente 4,5 milhões de anos ou mais, “por casualidade”, em processo adaptativo às condições de seca e ambiente mais aberto, que prevaleceu na África oriental. A postura bípede foi selecionada, favoravelmente, no processo evolutivo, porque os hominídeos puderam carregar os alimentos com as mãos e dividi-los com os parentes mais próximos. Ela favoreceu também a maior capacidade de relacionamento sexual dos hominídeos, que puderam ficar mais perto de si, por tempo maior (13). 

Na distinção entre natureza e cultura, ficou ordenado que a natureza seria o reino da repetição, que opera mecanicamente, de acordo com as leis da necessidade causal e do determinismo cego. A cultura passou a ser vinculada à história e à humanidade. Tornou-se o reino da liberdade, da escolha e da transformação racional dos valores, da distinção entre o bem e o mal, do verdadeiro e do falso, do justo e do injusto, do sagrado e do profano.
Todavia, “o fato da cultura” não engendrou sujeitos, definitivamente desgarrados, libertos das necessidades e das experiências corpóreas, uma vez que a humanização da natureza passou a ser mais um processo, através do qual, o homem impôs a lei humana à natureza.

Assim, até hoje, os humanos, permanecem enraizados em seu passado evolutivo. As motivações humanas ainda estão mergulhadas nas camadas do instinto, e seus preconceitos e desejos ainda se originam da vontade de sobreviver e reproduzir. 
No entanto, existe uma tensão entre os instintos da Idade da Pedra e as dificuldades impostas pela civilização pós-industrial.
Os humanos são forçados a construir o seu caminho com a bagagem genética de cinco milhões de anos.

Os primórdios da cultura humana:
Uma das características importante do gênero humano à época do surgimento da “consciência reflexiva” foi o princípio ou arquétipo feminino, que se constituiu no elemento espiritual ou mítico dominante da vida cultural.
Enquanto o arquétipo masculino tendia para a ação, a competitividade e a agressividade, o arquétipo feminino tendia ao relacionamento, à conexão com a natureza, à receptividade e à dedicação.
Segundo Campbell, em épocas pretéritas, a figura central de toda mitologia e culto era a dadivosa deusa Terra, mãe e nutriz da vida, anfitriã dos mortos que iriam renascer .
Nesse mundo primitivo, não havia espaço para a apreciação de relações causais ou acontecimentos separados no tempo. Mal se identificava a natureza como um aspecto separado da vida, de sorte que não havia distinção nítida entre o mundo dos sonhos, os estados alterados de consciência e a realidade comum. Também não havia divisão entre a esfera dos vivos e a dos mortos. Os humanos não compreendiam como a natureza funcionava e o mundo lhes parecia governado por forças superiores invisíveis.

Os mitos:
Os valores e preceitos sexuais, até hoje dominantes, são o reflexo das mitologias primitivas que formaram o núcleo e a essência do que chamamos realidade humana.
A base de muitas suposições sexuais surge, muitas vezes, nos mitos da criação, envolvendo a terra e o céu.  (11)
“Assim, no princípio foi Gaia, que é a terra… A vida brotou-lhe da boca… De todos os seus filhos, Urano, o céu estrelado, foi o primeiro a sair de seu corpo…sem pai, nem consorte. Depois a terra deu à luz às colinas, onde dançam as ninfas, e, em seguida ao mar, onde as ondas vagueiam… Então a terra deitou com o seu divino filho, o céu, e desta união proveio a primeira dinastia dos deuses…”
A cultura ocidental se respalda na velha suposição mitológica de que a terra é feminina (Mãe-terra), enquanto que o céu é masculino (pai celestial) e esse mandato se reflete na concepção das relações sexuais entre humanos, ou seja, o homem por cima e a mulher por baixo.
“Crono, esposo da irmã Reia, o mais jovem e traiçoeiro dos filhos da Terra, castra o pai e lhe usurpa o lugar no céu…e funda a dinastia dos deuses do Olimpo…
 Zeus, o mais ambicioso de todos os filhos de Crono e Reia, matou o pai e reinou no Olimpo acabando com o universo matricêntrico….”
“A raça dos homens foi criada por Prometeu, filho de Gaia, que sabia que a semente dos céus jazia dormindo na terra…Prometeu elevou-se aos céus e trouxe a tocha de fogo, que deu início à civilização….provocou a fúria de Zeus, que fabrica um ser humano, puro simulacro, Pandora, a que ninguém poderia se opor, e envia, como vingança, aos homens surgindo a mortífera raça das mulheres, que vivem no meio dos mortais, para grande transtorno deles….”

Outra modalidade mitológica de encarar a origem da sexualidade é registrada nos preceitos órficos , que relatam que, “no princípio, havia a noite, até que um ovo de prata contendo Eros se formou e, do nada, cresceu até se abrir e se separar em dois elementos terra (Gaia) e Céu (Urano), que copularam e deram origem a Crono e a outros titãs gigantescos.
Crono casa-se com Reia e dá a luz a muitos deuses, dentre eles ZEUS. Zeus engoliu o pai e passou a reinar no cosmos. Zeus conferiu a seu filho Dionísio o domínio do mundo recém-criado. Mas antes de assumir o domínio, Dionísio foi morto pelos titãs enciumados. Ao descobrir o que havia acontecido, Zeus destrói os titãs com os raios e trovões.”
Com estas cinzas, Zeus modelou a humanidade. Esse ato dá à criação o sentido do profano e sagrado.
Este mito fez com que a filosofia Órfica concedesse à humanidade uma dupla natureza em conflito permanente: “a bondade divina e a maldade herdada dos titãs”. O significado dessa ideologia transformou-se em prescrição dogmática de que “para se alcançar a divindade, tem-se que alimentar do que há de divino em si e expurgar o mal”.
Isto significa que os humanos carregam a herança de que a sua corporalidade e sexualidade constituem aspectos implacáveis de base mítica. Os valores humanos e seus juízos éticos são derivados dessa e de outras mitologias . (11)

Segundo Platão 427a.C.(14), na pessoa de Aristófanes,  a natureza humana passou por muitas mudanças através dos tempos. Os sexos da espécie humana eram três: macho, fêmea e o andrógino (metade homem e metade mulher). A figura de cada humano era inteira, sendo as costas redondas e as costelas circulares. Tinham quatro mãos e quatro pernas sobre um pescoço redondo; dois rostos, colocados um ao contrário do outro; duas “pudendas” e tudo mais dobrado como se pode imaginar. Não só caminhava ereto, como girava sobre as pernas, rodando, em círculos.  O sexo masculino era, primitivamente, um rebento do sol; o feminino, da terra; e o comum de dois, o andrógino, da lua. Eram dotados de força e inflados de orgulho. Atreveram contra os deuses, realizando escalada ao céu, para desafiá-los.  Zeus, não podendo tolerar tal insolência, decidiu um modo de enfraquecer a humanidade. Então, cortou, literalmente, todos os humanos em duas partes, com a maior precisão. De cada um que fendia, mandava Apolo virar a cara e a metade do pescoço para o lado do corte, para que o sujeito, contemplando-se, pudesse compreender a sua dimensão. Quanto ao resto, Apolo pegava a pele e amarrava tudo como um saco, deixando uma só abertura, o umbigo.
Ora, fendido em dois, cada metade sentia saudade da outra e se juntavam. Envolvendo-se em um abraço, ficavam enlaçados no desejo de se unificar e iam morrendo de inanição por não conseguirem fazer nada, um sem o outro. Assim, morrendo, iam se acabando.
Zeus, condoído com a situação dos mortais, passou-lhes as “pudendas” para frente do corpo, a fim de que pudessem reproduzir e continuar sobrevivendo. Quando se juntava um macho com uma fêmea, ocorria a geração e a espécie se conservava, mas, caso um mancho encontrasse com outro ou uma fêmea com outra, resultaria, ao menos, a satisfação de se entregarem ao trabalho e cuidarem dos interesses da vida. Por fim, todos os que são segmentos de machos procuram o macho; as mulheres, segmentos de mulheres procuram mulheres; e os andróginos procuram os sexos diferentes. Quando, de fato, cada metade encontra a sua outra metade, surgem sensações extraordinárias de afeição. Desaparece o ânimo de separar-se um do outro pelo mais breve tempo. Atravessam a vida juntos, desejando, somente, o gozo de desfrutar da companhia um do outro.

Quando a ideologia ocidental insiste que a atividade sexual é puramente instintiva, inata e natural, está relutando em reconhecer que a sexualidade tenha uma história. No entanto, os historiadores deixam claro que a sexualidade tem uma história.
 Por exemplo, a visão ocidental, judaico- cristã, recebeu a influência do mito da ‘má Eva’ e a posterior influência do mito pela história da ‘Virgem Maria’. Agora, “Maria Madalena” toma a vanguarda do movimento feminista, ampliando as fronteiras da liberdade feminina no exercício da cidadania e igualdade de direitos.
Essa visão patriarcal proclamou a mulher, representada por Eva, como uma criatura indisciplinada e fortemente sexuada. Por volta do século XVII, uma mudança ideológica radical convenceu as mulheres de que eram são menos sensuais do que os homens.
As mulheres passaram, então, a sofrer de anestesia sexual, e se transformam nas ‘Belas adormecidas’. Os homens se tornam os atletas sexuais, criaturas apaixonadas e sensuais que iniciam a atividade sexual, a despeito da resistência natural da mulher. A agressão sexual do homem passa a ser natural e simboliza a masculinidade. Sem uma descarga sexual conveniente, acreditava-se que a saúde do homem seria comprometida.
Na era vitoriana, a opinião acerca da desenfreada sexualidade masculina passou a ser considerada nociva. Considerava-se que a perda do esperma fosse debilitante. Os homens eram aconselhados a evitar a cópula antes de atividades importantes, como os eventos esportivos e manobras militares. A masturbação passou a ser condenada, acreditando-se que a perda do esperma pudesse, dentre outras mazelas, levar à loucura.
O corpo começa a ser encarado como uma metáfora da sociedade, como uma representação do grupo a que pertencem. As sociedades se tornam vulneráveis à interseção com outros grupos e ficam atentas aos orifícios do corpo humano, por onde passam as substâncias para dentro e para fora.
As sociedades, que consideraram importante manter o seu isolamento, passaram a proteger as suas fronteiras culturais contra a intrusão e a contaminação, o que pode ser simbolizado por meio de tabus em torno dos alimentos e do sexo.
No século XX, muitos estudos indicaram que o corpo da mulher serve de símbolo coletivo dos marcos fronteiriços, que separam o grupo dos estranhos. O isolamento vigiado das mulheres significa a ‘privacidade do grupo’. Portanto, a castidade feminina é justificada como forma de proteção contra a intrusão de estranhos, em sociedade baseada em parentesco.

Os contos de fadas
Contrariando o mito, a sabedoria não irrompe, plenamente, como Atenas emergiu, florescente e lúcida, da cabeça de Zeus. Ela é construída, passo a passo, na proporção que as experiências da vida e a maturidade vão se integrando em significados humanos.
Através dos contos de fada, que despertam, tão profundamente, a curiosidade da criança, aprende-se muito sobre os problemas e as soluções que a sociedade encontra para as suas adversidades. Através de séculos, os contos de fada vêm sendo contados e conseguem até hoje transmitir significados manifestos e encobertos a todos os níveis de personalidade humana, atingindo tanto a mente infantil quanto a do adulto. (4)
Sob uma óptica lúdica e liberal, essas estórias deixam vir a tona os desejos, as fantasias, as manifestações da sexualidade infantil, permitindo à criança lidar com seu imaginário, elaborando suas transgressões à luz das normas sociais.
Nesses contos, a sexualidade infantil é abordada dentro do contexto do princípio do prazer e da realidade e a criança passa a internalizar as prescrições morais da sociedade através dos juízos de valor que as estórias transmitem.  Assim, as crianças são punidas se são muito gulosas (fase oral), se são perdulárias ou avarentas (fase anal) ou se muito curiosas ou intrusivas (fase fálica).(6)
No caso da estória de “Chapeuzinho Vermelho”, segundo Chauí,M., o lobo é mau e se prepara para comer a menina, que ingênua, o confunde com a vovó, mas é salva pelo caçador, que, com o fuzil, mata o animal agressor e reconduz a menina para a casa da mamãe. A estória insere duas figuras masculinas antagônicas: o sedutor animalesco e perverso que usa a boca para seduzir e comer e o salvador humano, bom que usa o fuzil para caçar e salvar. A menina se surpreende com o tamanho dos órgãos do lobo e, fascinada, cai na sua goela. A sexualidade do lobo é destrutiva, oral, infantilizada. Em outros contos, os autores exploram, também, as primeiras manifestações da sexualidade da criança e suas escolhas de objeto parcial ou total. A mãe, como fada ou bruxa, ora desempenha o papel do objeto bom, ora o papel do objeto mau. Os elementos como frutas, alimentos venenosos, bolos, jóias representam ora o seio bom, ora o seio mau.
Na maioria dos contos de fada, a cultura impõe as normas e os valores e prescreve que o sofrimento decorre de sua desobediência.(6)

A evolução humana e Erich Fromm (1979)

A passagem do “estado de natureza” para o “estado de cultura” correspondeu ao desprendimento do homem dos laços incestuosos com o solo e a natureza, representados, concretamente, pelas relações afetivas primordiais com a mãe, para o grande salto na direção da autonomia e liberdade.
O homem, libertando-se da natureza, torna-se humano. Assim, a família passa a ser a agência psíquica da sociedade, a organização que tem por missão transmitir as exigências da sociedade ao sujeito em crescimento.
Na versão bíblica, a liberdade e autonomia são as metas do desenvolvimento humano e o objetivo da ação humana é o processo constante de libertação das cadeias que prendem os humanos à natureza, ao passado, ao clã e aos ídolos.
Adão e Eva estiveram presos, no início da evolução, ao sangue e ao solo, portanto, ainda eram ‘cegos’. Os seus olhos foram abertos depois que adquiriram o conhecimento do bem e do mal. Com este conhecimento, a harmonia original com a natureza foi quebrada. Ao iniciar o processo de individuação, os humanos cortam seus laços com a natureza. Com este primeiro passo de separação, a história e a alienação, têm início.
O ser humano só se reconcilia com a natureza quando se torna plenamente humano.
Esta não é a história da queda do homem, mas do seu despertar, e, assim, do começo de sua ascensão.
Junto com a história da expulsão do paraíso, do ventre materno, o texto bíblico proclama em linguagem não simbólica a necessidade de se cortar os laços com o pai e a mãe, nos seguintes termos:…’por isto o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à outra mulher e serão dois em uma só carne’.
Ou seja, a união entre o homem e a mulher só se torna possível depois que os laços do incesto forem cortados.
Na história de Abraão e das tribos hebraicas fixadas no Egito, uma nova dimensão, a dimensão da escravidão foi acrescentada aos laços de sangue e solo. Portanto, o mandato foi não só cortar os laços com os pais, mas também os laços sociais destrutivos, que fazem do sujeito um escravo, dependente de um senhor.
No processo do desenvolvimento da raça humana, talvez não tenha havido outro modo de ajudar os humanos a se libertar dos laços incestuosos com a natureza e o clã, exigindo deles obediência às leis de Deus.
A obediência à autoridade racional é o caminho que facilita o rompimento da fixação incestuosa com as forças arcaicas pré-individuais. Além disto, a obediência a Deus é também a negação da submissão aos homens:
‘Resolvemos há muito não ser súditos dos romanos, nem de ninguém, exceto de Deus, pois somente Deus é verdadeiro e justo senhor do homem’.
A idéia da servidão de Deus transformou-se na base da liberdade do homem em relação ao homem. A autoridade de Deus garante desta forma a independência do homem em relação à autoridade humana.
Isso confirma o fato de que os objetivos do desenvolvimento do homem, o corte do cordão umbilical, significam a liberdade, independência, autonomia e a capacidade de dever a existência a si mesmo.
Mas esta independência radical é possível ao homem? Pode ele enfrentar a sua solidão sem desmaiar de terror?
Não apenas a criança, mas também o adulto é impotente e desamparado:
‘Contra a tua vontade foste gerado e contra a tua vontade,
nasceste e contra a tua vontade, vives e, contra a tua vontade, morrerás…e contra a tua vontade estás destinado a prestar contas ao rei dos reis, ao sagrado, Bendito seja ele.’
Os humanos têm consciência dos riscos de sua existência e suas defesas são insuficientes. Sucumbem às enfermidades e morrem. Vivem da incerteza e do conhecimento fragmentado. Têm consciência de serem seres que jamais se completam. Mesmo que superem a fixação ao solo, à mãe e ao clã, apegam-se a outras forças que lhes proporcionam segurança e certeza: sua nação, os amigos, o seu grupo, o poder social, a sua família, o seu dinheiro e outras.
A obediência no plano patriarcal da tradição bíblica é a obediência à figura do pai, que representa a razão, a consciência, a lei, os princípios morais e espirituais. A mais alta autoridade no sistema bíblico é Deus, que é legislador e que representa a consciência.  Do ponto de vista bíblico, o ser humano é frágil e fraco, mas é um sistema aberto, que pode se desenvolver a ponto de libertar-se.  Precisa obedecer a Deus para que possa romper os laços primários e não se sujeitar ao homem.
Historicamente, a obediência se faz em geral com relação ao pai. A fixação é o laço com a mãe, ao sangue e ao solo, em casos extremos, o laço simbiótico, que bloqueia o processo de individuação. A fixação incestuosa é um laço com o passado e um obstáculo ao desenvolvimento total.
Mas o conceito de liberdade, se levado às últimas conseqüências, seria a sua libertação de Deus? 
A idéia de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus contém o conceito da igualdade entre eles ou mesmo de sua liberdade em relação à Deus e a idéia humanística de que o homem encerra em si toda a humanidade. Isso se expressa na ideologia nacionalista.
No processo da história, o sujeito faz nascer a si próprio.  Quando os humanos tiverem superado a divisão que os separam de seus semelhantes e da natureza, então estarão, realmente, em paz com aqueles de quem se separaram. Para ter paz, o indivíduo (indiviso) tem que recuperar a unidade. A paz é o resultado de uma modificação interna, pela qual a união substitui a alienação. É a realização da humanização. É a superação das distâncias, é a harmonia e união entre os humanos. Esta nova harmonia se faz também com a natureza. O sujeito deixa de ser ameaçado pela natureza e não deseja mais dominá-la. Torna-se natural e a natureza se torna parte dele. A natureza dentro pessoa deixará de ser mutilada e fora, deixará de ser estéril. (9)

A horda primitiva e Freud (1913-1914):
O totem é o antepassado comum de um clã. O laço totêmico é mais forte do que os laços de sangue ou de família no sentido moderno. A exogamia é uma instituição relacionada ao totemismo . 
Em todos os grupos sociais com características totêmicas, observa-se uma lei contra as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem .
A psicanálise nos ensina que, como resquício de épocas primitivas, a primeira escolha de objeto é incestuosa e que vai desaparecendo à medida que o sujeito cresce. O neurótico tem certo grau de infantilismo psíquico ou falhou em se libertar dessa condição afetiva da infância ou a ela retornou por inibição ou regressão no desenvolvimento. As fixações incestuosas da libido desempenham o papel principal na vida mental inconsciente do sujeito, como o complexo nuclear da neurose.
A verdadeira origem do tabu está na fonte dos instintos humanos, no temor dos poderes demoníacos, que se acredita jazer oculto no objeto-tabu, Wundt(1906). “Cuidado com a cólera dos demônios!”
Pouco a pouco, o tabu ganhou força própria, independente da força dos demônios, e, a partir dele, se desenvolveram normas e costumes da tradição que se transformaram em lei.
Os tabus são proibições da antigüidade que foram impostos de forma violenta por uma geração anterior à outra geração mais nova.
As mais antigas proibições ligadas aos tabus foram:
- Não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto.
Esses devem ter sido os mais antigos e poderosos desejos humanos!
A base do tabu é a ação proibida, para cuja realização existe forte inclinação no inconsciente. É uma proibição primeva imposta forçosamente por alguma autoridade de fora e dirigida contra os anseios mais poderosos a que estão sujeitos os seres humanos. O desejo de violá-lo permanece no inconsciente e aqueles que obedecem ao tabu têm uma atitude ambivalente quanto ao que o tabu proíbe. O poder mágico do tabu baseia-se na capacidade de provocar tentação e atua como contágio, porque o desejo no inconsciente desloca-se de uma coisa para outra. A renúncia está na base da obediência ao tabu.
Comparando o tabu e a neurose, pode-se compreender as diferentes formas de neurose, sua origem, suas distorções e relações com a instituição social. Assim, a fobia de contato começa na tenra idade, quando o sujeito deseja tocar e encontra a proibição, que não consegue abolir o instinto. O resultado é a repressão do desejo de tocar, mas o impulso e a proibição persistem. Daí, a emergência de uma atitude ambivalente. O sujeito deseja tocar (gozo), mas também detesta o ato de tocar.
A histeria é uma caricatura da obra de arte; a neurose obsessiva, da religião; o delírio paranóico, do sistema filosófico.
A imagem que um filho tem do pai é investida de poderes excessivos e a desconfiança está ligada à admiração por ele. Quando um paranóico transforma a figura de uma pessoa em perseguidor, está transformando esse em pai e colocando-o em posição que possa ser culpado de todos os seus infortúnios. O ato obsessivo é ostensivamente uma proteção contra o ato proibido. A divergência é que as neuroses são estruturas associais, pois esforçam por conseguir por meios particulares o que a sociedade efetua através do esforço coletivo.
A natureza associal das neuroses tem a sua origem genética em seu propósito mais fundamental que seria fugir de uma realidade insatisfatória para um mundo mais agradável de fantasia. O mundo real acha-se sob a influência da sociedade humana e das instituições criadas coletivamente por ela. Negar a realidade é também afastar-se da comunidade dos homens.
A exogamia seria prevenção do incesto e proteção dos grupos em situação de guerra. As fobias seriam deslocamentos para animais e outros objetos dos medos relacionados aos pais (ambivalência). Se o animal totêmico é o pai: matar o pai e casar com a mãe foram os crimes de Édipo e é o núcleo de toda neurose na infância.
Na horda primeva, o pai era violento e ciumento e guardava todas as fêmeas para si. Expulsava os filhos à medida que cresciam. Certo dia, os irmãos se reuniram, mataram e devoram o pai. Pelo ato de devorar, se identificaram com o pai e a partir daí surgiram as organizações sociais, e com elas, as restrições morais e a religião. Emergiu também o sentimento de culpa entre os filhos e o pai morto se tornou mais forte que o vivo. Os filhos desesperados anularam o próprio ato de violência e proibiram a morte do totem, o substituto do pai, e renunciaram aos frutos, abrindo mão das mulheres, agora libertadas.
Se cada um quisesse, como o pai, possuir todas as mulheres, a nova organização iria à falência. Daí, a alternativa, criar-se a lei contra o incesto e renunciar às mulheres. Assim, salvaram a estrutura social e se tornaram fortes. O pai se transfigura em Deus, glorificado, em tentativa de expiação do homicídio cometido. A sociedade patriarcal tornou-se a sociedade sem pai e a família passou a reconstituir a sociedade primitiva. Cristo, que sacrificou a própria vida por todos os filhos, concedeu a solução para a remissão da culpa de seus irmãos.
Do ponto de vista de Freud, a diferença entre os neuróticos e os humanos primitivos é que aqueles são inibidos em suas ações, ao passo que estes eram desinibidos. Os impulsos convertem-se em ações através das crianças, consideradas polimorfo-perversas. É importante não esquecer que “no princípio, foi o ato”.(5; 8)

A Antropologia cultural:

O conceito básico subjacente às teorias de evolução sociocultural é que as sociedades humanas, no curso de longos períodos, experimentaram processos simultâneos e mutuamente complementares de autotransformação, um deles responsável pela diversificação e o outro pela homogeneização das culturas.
Os antropólogos referem que a relação entre macho e fêmea foi a mais natural das relações que ocorreram entre homem e mulher. A ajuda mútua foi o elemento caracterizador desta relação desde as suas origens e a reciprocidade foi a condição de sobrevivência da espécie, o que é constatável nas sociedades primitivas.
A cultura passa a ser o instrumento da história que se acrescenta à natureza humana para fins de adaptação.
A ênfase é dada pela ‘diacronia’ da evolução histórica. Segundo esta perspectiva, a família monogâmica atual é o resultado da lenta evolução de três estágios sucessivos do desenvolvimento familiar:
a- A família consangüínea, que se baseia no casamento recíproco entre irmãos e irmãs no interior do grupo;
b- A família punaluana, que se restringe ao casamento de várias irmãs com os maridos de cada uma delas e vice-versa, ao casamento de vários irmãos com as esposas de cada um dos outros, aumentando-se as proibições do incesto;
c- A família fundada no casal, onde se esforça ainda mais o tabu do incesto, restringindo-se a possibilidade do casamento a até dois indivíduos de cada vez.
O “avunculado” é a condição de parentesco, que determina o respeito e obediência do sobrinho uterino e o tio materno e assinala uma solução estrutural para o enigma do incesto. A relação avuncular existia tanto nos sistemas matrilinear quanto no patrilinear e a função do tio materno foi interpretada como correlata à função paterna.
Assim, como o problema da sobrevivência, do conforto e da proteção física foi resolvido mediante a constituição do sistema produtivo e dos instrumentos de trabalho, os problemas da reprodução encontraram solução na instituição da família, núcleo elementar de parentesco e, portanto, da sociedade.
Para ajudar o recém-nascido humano a ser capaz de enfrentar as vicissitudes da natureza e da sociedade; para imprimir certa lei às relações sexuais, elemento desagregador da solidariedade entre os membros do grupo; e pelas tensões e rivalidades criadas no interior do grupo, elegeu-se a família, como uma instituição sagrada.
Portanto, a família, elevada a uma instituição fundamental, e, cuidadosamente, isolada da história, foi celebrada como uma ‘função principal’, que deveria ser iluminada e defendida em toda a sua indiscutível autoridade.
O “Tabu do Incesto”, passou a ser identificado como um momento da passagem do “sexo natural” ao “sexo cultural”, como padrão de comportamento em todas as culturas.
Segundo Levy-Strauss(1966), a proibição do incesto foi a regra de reciprocidade por excelência e a exogamia foi a sua expressão socialmente ampliada, que veio assegurar a circulação total e contínua dos bens por excelência que o grupo possui, ou seja, suas mulheres e suas filhas.
Essa lei veio apaziguar a cultura, porque, a partir dela, tudo se fez para impedir que guerras entre as tribos, viessem destruir os filhos das filhas dadas em casamento a outros grupos humanos.
Assim, as especulações relativas à essência biológica e mítica da família também foram sendo definitivamente destituídas e, com o tabu do incesto, a família passa a expressar a passagem do fato natural da consangüinidade para o fato cultural da afinidade.

O modelo da família passou, então, a ser descrito como o grupo social que:
1- Tem a sua origem no casamento.
2- Consiste no marido, mulher e filhos nascidos de sua união e de outros parentes que integrem este núcleo familiar.
3- Os membros da família são ligados entre si por vínculos legais, econômicos, religiosos e outros tipos de deveres e direitos, além de uma precisa rede de proibições sexuais, e um conjunto variável e diferenciado de sentimentos psicológicos, como o amor, raiva, medo e outros.(5)

Família como pré-história das relações sociais:

O fato cultural para a formação da família foi a transmissão hereditária dos bens a filhos certos e legítimos, assim como o fato da natureza foi a procriação. A família não é tanto um micro-sistema a ser relacionado com um macro-sistema social, como parte da literatura sociológica tende a mostrar, mas uma estrutura que, mais do qualquer outra, contém em si a esfera da cultura e a esfera da natureza.
O sentido da morte (thanatos) - Quando o chefe de família ou outro elemento importante deixa de viver, a família ou o grupo, em certo sentido, começa a morrer… A perda de elementos importante da família dispersa uma parte da substância do grupo. Os fundamentos materiais e morais da coesão da família são prejudicados pela morte, na medida em que não existe solução de continuidade na própria essência dos indivíduos que a compõem. Neste ponto, os rituais e outros processos de socialização salvam a coesão e a solidariedade da família e do grupo: luto, sepultura, funerais e religião.
O casamento não é somente a ordem compartilhamento da vida, mas, também, a forma de enfrentar em comum e, solidamente, a morte.
Para Freud, o momento da morte está presente na constituição da família. O impulso agressivo contra o pai é um derivado do instinto de morte. De todas as articulações contraditórias, que tornam a morte presente no âmbito familiar, tanto consciente quanto inconscientemente, a família torna-se um foco de pulsões destrutivas e autopunitivas, última defesa neurótica contra o progressivo envelhecimento dos cônjuges e contra a ameaça da morte.(5)
O sentido da vida (Eros) - Criar a vida é a única atividade humana que requer a presença de um parceiro.
A reviravolta histórica foi a invenção da família monogâmica patrilinear, que estabelece a descendência certa e legítima para a transmissão hereditária dos bens. A pesquisa antropológica mostrou que a relação de autoridade e dependência sobre a qual se desenvolve o complexo edipiano não é algo absolutamente natural, mas se apóia na desproporção entre o poder do pai e a impotência do filho, determinado pelas formas concretas assumidas nas relações sociais e culturais de cada civilização.
O papel do pai se constituiu como autoridade absoluta e com o poder de deserdar. Por isto, a família monogâmica deve suas origens à propriedade e a direitos legais.
O fim da pré-história significa uma reavaliação do complexo de Édipo, que deve ser visto como reflexo do terror de Laio. O obscuro presságio de Laio, símbolo que deve ser removido de toda autocracia paterna, é a ameaça inconfessada que todo pai experimenta diante do filho: - a sucessão na vida, nos bens, no sexo e outras.
Em cada geração de filhos, na ambivalente relação de amor e ódio, oculta-se uma realidade angustiante, pois a geração dos pais experimenta na emergência da vida a certeza da caduquice da própria geração e coloca em discussão os seus privilégios no plano do vivido. O complexo de Édipo é o produto do terror autoritário de Laio, negado, invertido e projetado.
Ëdipo que matou o pai foi um criminoso, independentemente, da consciência da própria atuação, mas o crime de Laio não foi experimentado como um delito.
A crise da autoridade estrutural, hoje, se funda no desaparecimento da figura do pai, na decadência do complexo de Édipo, que é um reflexo, também, da decadência do complexo de Laio.(5)
Morte e ressurreição da família:
O movimento dialético, que desmascara a aparência, socialmente necessária, da legitimação da família, recorre às manifestações do simulacro e da dimensão sagrada de eternidade da família, enquanto emanação da naturalidade e da divindade.
Segundo Nietzsche, a burguesia uniu em férreo triângulo, o amor, o casamento e a sexualidade. No interior deste triângulo, a família tornou-se a célula do Estado capitalista avançado.
“Marca-se uma coisa a fogo para que reste na memória”,Nietzsche”
A dimensão da liberdade individual é articulada tanto com a falta da liberdade social, como com falta da liberdade natural. 
À luz de Antígona, o princípio do amor que nasce e desenvolve na família é antagônico à injusta autoridade constituída e significa o princípio da solidariedade e do amor contra o princípio autoritário por excelência.
Buscar a superação da família ‘atual-fetiche’ significa denunciar os aspectos correspondentes do poder hereditário, que tem como motivação estrutural a transmissão dos bens, do privilégio que funda a autocracia, da filiação contra a afinidade. Significa romper a crosta das relações capitalistas de produção, que sufocam a pureza inata das relações humanas.
É a afirmação de que a liberdade de todos é cada vez mais, indissoluvelmente, ligada à felicidade de cada um e vice-versa. O desprezo e a negação da felicidade não são a condição do realismo!(5)
As relações de gênero no tempo contemporâneo:
A monogamia não surge na história como uma espécie de reconciliação entre o homem e a mulher e menos ainda como uma forma mais elevada de família. Comparece em cena como forma de sujeição de um sexo sobre outro e de proclamação de conflito entre sexos.
Marx e Engels registram em um velho manuscrito, elaborado em 1846:
 ”A primeira divisão do trabalho é a que tem lugar entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos e o primeiro antagonismo de classes a surgir na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher em regime monogâmico e a primeira opressão de classe se manifesta com a opressão do sexo masculino sobre o feminino.“ (7)

A monogamia é o resultado de uma longa progressão histórica, que inaugurou, ao lado da escravidão e da propriedade privada, a antinomia do desenvolvimento, que se realiza a custa da infelicidade e da opressão dos outros. É uma forma celular da sociedade civilizada, através da qual se pode estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que se desenvolvem nessa mesma sociedade.

Mas, a família monogâmica não se apresentou em todos os lugares e em todos os tempos da mesma forma clássica e rude. Ela fez nascer, também, um novo modelo conjugal, uma mudança de mentalidade, uma conquista moral de amor recíproco entre os esposos.
Em 1792, na França, é instituída a lei do divórcio, uma conquista da mulher que ” deixaria de estar irrevogavelmente submetida aos caprichos e ao humor de seu esposo, tornado arrogante, indiferente e cruel.”
Exigia-se também que a declaração dos direitos do homem se aplicasse igualmente às mulheres, qualquer que fosse a sua idade e condição. Denunciava-se a lei que excluía as mulheres do trono, das partilhas de sucessão e a obrigação das mulheres de renunciarem a seu nome, quando se casavam.
Por outro lado, dizia-se: “O sexo frágil é tão dotado de sensibilidade, tão susceptível a vivas emoções e agitações perigosas, incapaz de refletir que, somente através de uma sólida instrução, que substitua a tendência à frivolidade, à vaidade e às quimeras, poderão as mulheres tornarem-se aptas a exercerem os seus direitos. Se a natureza destinava a mulher a tarefas maternais e domésticas, por que ensinar-lhes línguas mortas ou ciências abstratas? A educação doméstica bastava para a felicidade das mulheres e de sua família. “ (3)
Rousseau foi o grande triunfador do século XVIII, justificando a felicidade através do novo modelo familiar, fechado para o exterior e centrado no amor conjugal e parental.(16)
A mulher deveria ser a esposa virtuosa e fiel, mãe até o sacrifício de si mesma. Assim, a felicidade do homem e da sociedade estava garantida. No retrato idílico de Emílio e Sofia, é lembrado: ” A ele cabe a força, a audácia e a conquista do mundo exterior. A ela, a doçura, a modéstia, as atividades caseiras e o poder sobre o pessoal da casa.”
“Ela deve sofrer em silêncio e dedicar sua vida aos seus, pois tal função é a que a natureza lhe destinou. A mulher reina em seu lar, como o homem no mundo. Ela assume as fadigas e os perigos da maternidade, como ele assume os da guerra e do poder.
 É lançada uma advertência solene:
 ”Assim como veneramos a mãe de família que encontra a sua felicidade e a sua glória cuidando dos filhos, educando-os, tecendo os trajes dos maridos e aliviando as suas fadigas com o cumprimento dos deveres domésticos, também devemos desprezar e rejeitar a mulher sem vergonha que enverga túnica viril. “
As mulheres, em sua imensa maioria, aceitaram e interiorizaram este novo modelo de relação entre os sexos. Os princípios da burguesia ganham a sociedade. Toma-se consciência de que a riqueza de uma nação depende de uma população numerosa.”São necessários braços que segurem a foice em tempo de paz e o fuzil em tempo de guerra”. É importante diminuir a mortalidade infantil, elevada pela falta de higiene e de cuidados maternos.
Filantropos, médicos, padres, moralistas desenvolvem argumentos que convencem as mulheres de permanecerem em casa e amamentar seus filhos, de cuidar deles até que cresçam e de se tornarem esposas e mães admiráveis. Eis que as mulheres são elevadas à categoria de salvadoras da pátria e responsáveis pela nação!
A linguagem da virtude, do coração e das responsabilidades as entusiasmou! Era glorioso encarnar o novo modelo que não admitia qualquer falha. E a família se fechou cada vez mais na vida privada para se concentrar em tarefas educativas, assegurando a promoção social dos filhos e garantindo a persistência de seu sistema de valores.
Hoje em dia, este modelo ainda é predominante, mas o núcleo familiar tende a reduzir-se pela limitação voluntária do tamanho da prole.
No entanto, o declínio deste modelo em favor de um modelo pós-moderno já começou. O projeto romântico que motivou o compromisso afetivo do casal revela-se hoje mais frágil do que os imperativos de linhagem ou de salvaguarda do patrimônio herdado. Assistimos à instabilidade dos casais e à fragmentação do ninho familiar. É o fim do Patriarcado, na sua extensão absoluta e relativa.
A crise da família assume também aspectos de um acerto de contas, não apenas em face da grosseira opressão que a mulher, mais fraca, depois, os filhos sofreram por parte dos chefes de família até o inicio desta época, mas também diante da injustiça econômica que nela se praticava, da exploração do trabalho doméstico em uma sociedade que obedecia à lei do mercado.
 A autoridade do pai acaba quando não pode mais garantir, de modo seguro, a vida material da família e esta não mais consegue proteger os seus membros contra o mundo exterior que pressiona inexoravelmente.
No momento em que se vislumbra a possibilidade da plena realização do direito humano com a emancipação da mulher, obtido graças à emancipação da sociedade, que alcança o máximo de expansão em todos os setores da tecnologia e ciência, assiste-se à crise integral da família.
Com a liberação feminina e a queda da autoridade paterna, descortinam-se os filhos, crianças e adolescentes, com suas necessidades biológicas, psicológicas e sociológicas, que se transformam, neste século, nas pessoas mais vulneráveis de sofrer as conseqüências mais traumáticas dos distúrbios familiares e sociais.
À queda do patriarcado, desponta o filiarcado. As mulheres alegam que deixaram a família pelos filhos. É por eles que saíram em competição com os homens no enfrentamento das tarefas alheias ao lar.
Em um mundo exaurido de suas reservas de sustentação, é na busca de sobrevivência e conforto para a prole que as mulheres abandonaram os próprios filhos. Instaurada a iconoclastia, produzida a morte do poder estrutural de Laio, emerge a crise do complexo de Édipo, em momento pleno de ascensão dos direitos dos filhos.
Os meios de comunicação comandam a nova era. Neste tempo impar da história da humanidade, a experiência tecnológica é projetada no futuro, para ser conquistada no presente, invertendo-se a cronologia histórica dos acontecimentos. E não se trata de um fenômeno isolado, atingindo um grupo populacional restrito, mas se assemelha a uma revolução universal, dentro da qual se confundem todas as nações num bloco compacto e sem limites definidos.
E a humanidade constitui-se hoje em um mundo novo, com características mutantes, em busca de uma identidade transcendente com todo o espectro de peculiaridades que advém de tal condição. Nesse universo da globalização, a família se transborda para o espaço público, perdendo a privacidade e a identidade. Assim, galgando-se as fronteiras geográficas, culturais e ideológicas, extinguem-se, também, os pilares éticos de todas as instituições vigentes.
Sob o comando da mídia, que determina os novos comportamentos de humanos, tudo passa a ser descartável, inclusive as relações de família.
Hoje, a palavra que corresponde a “casamento” é “união estável”. A Igreja, se convocada, abençoa o casal e o cartório registra os bens, que, na maioria das vezes, são, somente, os filhos. A rigidez  dos papéis sexuais vão se dissipando e os preconceitos e as discriminações sociais vão tomando outras dimensões.
A ascensão recente das minorias garante a pluralidade dos papéis femininos e convence a mulher da sua competência na produção independente. Paralelamente, o fato da superpopulação eleva o estatuto dos homossexuais, uma vez que esses podem amar sem procriar.
A lei externa passa a ser o limite, que antes era colocado pela família ou grupos sociais fechados.
Dentro deste contexto, inserem-se crianças e adolescentes, em contingente numérico significativo, trazendo como conflito nuclear, o mandato de conquista da própria identidade, em uma sociedade em crise de identidade ideológica, religiosa, política, econômica, social, cultural e estrutural, buscando no amplo espectro de suas possibilidades e conquistas a sua real finalidade.
Os filhos desta era vão construindo a sua vida com uma dificuldade imensa de se vincular afetivamente com outras pessoas, temerosos de reviver situações anteriores de abandono muito dolorosas.
Na era da informática, preferem conviver com as máquinas, deleitando-se com programas de televisão e computador. Sobrevivem com distúrbios de socialização, seguidos de dificuldade escolar e culminam na adolescência, com condutas sociopáticas, que vão do furto à violência, das dificuldades com a lei à morte no trânsito. A partir da vivência das mais variadas formas de carência afetiva, saem a procura dos pais além dos limites do lar, onde, na verdade, eles se encontram.
Assiste-se, assim, ao nascimento de um novo tipo de crianças:- “os meninos de ruas”. Sejam de classe sócio-econômica alta ou baixa, eles só se diferenciam no que fazem e como se vestem. Uns furtam os carros dos pais, outros, as bolsas nas ruas. Uns povoam os “shopings” da cidade, outros ficam nas rodovias. As suas histórias de vida são semelhantes, porque falam do abandono nas mais sofisticadas configurações e nas mais variadas formas de manifestação. São todos filhos de “ famílias de rua”! A sociedade está na rua!
Apesar da divulgação de número cada vez maior de “transtornos de conduta” em crianças e  adolescentes, nunca se conheceu tanto sobre o ser humano em suas necessidades mais profundas. Os pais, em seus desabafos nos consultórios, relatam que não têm autoridade sobre os filhos, pois os filhos de hoje não “honram Pai e Mãe” e nada têm em comum com aqueles que os geraram. Tudo isto é verdade. Pais e filhos, dentro da sociedade atual, nada têm em comum, porque nunca se encontraram. Os filhos se assemelham à infinidade de babás que tiveram e ao número de programas de televisão que assistiram.
Uma nova consciência emerge rapidamente em fins do século XX e uma revisão das iatrogenias humanas passa a ser publicada antes que se alastre a epidemia do abandono.
Por força de lei, o instinto materno é reascendido e passa a ser ensinado e exercitado, desde a sala de parto até o chamado “Alojamento Conjunto”. O aleitamento materno se torna objeto de campanhas publicitárias, que tentam provar a sua superioridade sobre qualquer outra fórmula láctea. Na educação dos filhos, o amor é receitado em doses suficientemente adequadas ao bom desenvolvimento afetivo do ser humano. Publica-se no Brasil o ESTATUTO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (1990), manual de normas e leis que regem os cuidados parentais, familiares e sociais para o estabelecimento de uma boa saúde e educação para as crianças e adolescentes de forma a se proteger os filhos dos pais e da sociedade em geral. E os pais, perplexos, vão descobrindo, pouco a pouco, a sua valiosa importância na construção da personalidade de seus rebentos.
É preciso repensar o ser humano em todos os seus momentos evolutivos, com suas características pessoais e idiossincrásicas, e, quaisquer que sejam os avanços ou retrocessos dessa civilização, não perdê-lo jamais como prioridade, qualquer que seja sentido da evolução. (12) .(http://saudedejovens.com.br/)
Referências bibliográficas:
1- ARIÈS, F., FLANDRIN, B. & VEYNE, P. Sexualidades Ocidentais. Editora Contexto. Lisboa, 1983.
2- ARIES, P.. História Social da Criança e da Família. Editora Guanabara. Rio De Janeiro. 1881.
3- BADINTER, E..Palavras de Homens. Editora Nova Fronteira. Rio De Janeiro.1989.
4- BETTELHEIM,B. A Psicanálise dos Contos de Fada. 6ed. Paz e Terra.1980.
5- CANEVACCI, M..Dialética da Família. Editora Brasiliense. São Paulo.1987.
6- CHAUI, M. Repressão Sexual. Círculo do livro.
7- ENGELS. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Editora Escala. São Paulo.
8- FREUD S.  Totem e tabu.  Edições Standart Brasileira. v.13. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1913.
9- FROMM, E. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Ed. Zahar. 9ºed.1979.
10- GRUNSPUN, H..Assuntos de Família. Kairus Livraria Editora. São Paulo.1984.
11- HIGHWATER,J. Mito de Sexualidade. Ed. Saraiva.São Paulo. 1º ed.,1992.
12- MAAKAROUN, M. F. Profilaxia do Abandono. In Adolescência. Secretaria Do Estado Da Saúde, S. E.,Coordenação Materno Infantil,1993.http://www.saudedejovens.com.br/
13- MITHEN, S. A pré-história da mente. Editora UNESP. São Paulo. 2002.
14- PLATÃO. Diálogos. 6ed. Cultrix.  São Paulo. 1976.
15- RIDLEY, M. O que nos faz humanos. Ed. Record. R.Janeiro. São Paulo. 2004
16- ROUSSEAU, J.-J. EMÍLIO ou Da Educação. Editora Martins Fontes. São Paulo. 1995.
17- Winston. R. Instinto Humano. Ed. Globo. São Paulo. 2006.

*Marília de Freitas Maakaroun: Médica, Pediatra, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Professora Doutora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais

A adolescência e as vicissitudes do século XXI

Marília de Freitas Maakaroun

A adolescência, no contexto evolutivo humano, é a idade em que se concretiza o florescimento pleno do desenvolvimento corporal humano e, junto com ele, a emergência da razão na forma mais pura, da consciência de si e de forma imperativa, as paixões e o amor. Paradoxalmente, a realidade manifesta-se no seu resplendor junto com as forças que disciplinam os impulsos para alcança-la. Em momento de plena revelação da vida, ela tem que ser contida, porque a paixão desenfreada significa a morte e a adolescência traz consigo a dolorosa consciência da morte. Eis a dupla face da evolução, do desafio inexcedível do auto-conhecimento e da abertura do universo às conquistas humanas.
É pela educação que o sujeito adolescente encontra o seu caminho, de forma a poder trilhá-lo com os próprios recursos. A palavra educação é empregada, aqui, no sentido de conduzir, com desvelo, solicitude e atenção com vistas aos valores humanos, para que, ao final, seja com seres humanos e como seres humanos que encontraremos os nossos semelhantes.
Quando o bebê deixa o útero materno para a vida, ele perde os limites do corpo materno e ganha a vastidão do universo. Ele só sobrevive com o amor e o carinho de seus cuidadores. Ele só conhece o prazer e o desprazer que ele próprio se dá, porque, para o bebê, a mãe e o mundo são uma extensão dele mesmo. Ele vive o imaginário e constrói da fantasia a própria vida. Se não fosse assim, ele seria só desamparo. A grandeza de sua energia amorosa tem a força e a intensidade do amor de seus pais. Mas o princípio da realidade impõe a evolução no sentido do desvelamento da verdade. E, quer queiramos quer não, é no enfrentamento das vicissitudes da vida, que vamos ampliando a nossa consciência do mundo e vamos percebendo o nosso exíguo universo e a amplitude infinita de tudo o que nos rodeia .
O mito de Narciso conta que só o amor a si nas águas límpidas do lago pode custar o sofrimento que culmina com a própria morte. Enquanto crianças, criaturas da natureza, ignorantes de si, somos felizes e construímos com mágica e alegria a nossa existência. Com a evolução e o amadurecimento, na diferenciação concreta e definitiva de nós mesmos, vamos percebendo as nossas limitações, as incerteza da condição humana, da perda do vigor e do próprio desaparecimento e a profunda necessidade do outro como referencial para a nossa própria vida.
Eis o adolescente de hoje, o puro Narciso lançado ao mundo em tempo e lugar de muitas possibilidades, pleno de energia e força de vida, apaixonado por si e pelo mundo, pedindo para se exprimir no amor e na poesia, mas sem os referencias humanos confiáveis e sem a sustentação suficiente da sociedade, de forma a imprimir sentido à sua realização como pessoa. Junto com o legado cultural maravilhoso da pós-modernidade, ele descobre as limitações impostas a si pela própria imaturidade e pelo mundo individualista, regido pelas leis do imperativo perverso do mercado capitalista.
Este mundo novo, que mal contém os adultos que se corrompem por seus espaços, prolonga a adolescência dos jovens, infantiliza as pessoas e os adolescentes vão permanecendo em compasso de espera, retardados, nas suas expressões de amor e de projetos de vida.
A prescrição é ‘ficar’, porque adolescente não pode amar, pois amar implica compromisso e o compromisso implica vínculo com a família e a sociedade. Os saudosistas dizem que não se vive mais ‘o amor’, romantismo de época pretéritas, porque, hoje, amor é doença afetiva, obsessão tratável por psiquiatras, que pode levar ao auto-extermínio e custar o sofrimento de uma eternidade. No momento atual, é importante que tudo seja descartável, que o prazer não tenha compromisso, que o tempo possa ser consumido e jogado fora…  ‘Transar sim’, ‘engravidar não’, porque a gravidez significa também compromisso e cuidado, que envolve a família e a sociedade. A sociedade nega e recusa o próprio crescimento. A gravidez na adolescência emerge também como doença a ser tratada, mas, pensando bem, pode ser o grito da natureza na direção da sua realização que é recusado a ser ouvido,  a ser compreendido e acolhido.
Muitos anos de formação acadêmica têm que transcorrer para que os adolescentes e jovens se tornem adulto e para que o adulto perceba que sua criança cresceu, para que essa criança também possa crescer e ser feliz, vivendo, normalmente.
Em uma cultura sem leis, em que gangs executam pessoas, segundo os próprios ordenamentos, a natureza grita, através dos desastres ecológicos, da violência, da banalização da sexualidade, oferecendo ao jovem a condição da descoberta da grandeza da possibilidade de viver o amor de toda a sua vida no infinito tempo de “um só minuto”(eles chamam essa possibilidade de “ficar”). Eis as vicissitudes do século XXI!

A PROFILAXIA DO ABANDONO

MARÍLIA DE FREITAS MAAKAROUN*

“ …o que fazer do que fizeram de mim?”
SARTRE(1905-1980)

1-  A adolescência e o Mundo Conteporâneo:

Sob a óptica libertária da pós-modernidade, emerge a adolescência de hoje, recém-chegada da infância, a meio caminho da maturidade, cheia de vida e sedenta de liberdade. Ela se manifesta em contexto mundial histórico, cultural, social e econômico com características inusitadas. 
Neste século, em que a ciência e a técnica operam em ritmos cada vez mais acelerados, a infância e a adolescência, como todas as idades da vida, assumem dimensões e sentidos também extraordinários.
 As prescrições vão se tornando mais flexíveis e esboçam-se modelos mais igualitários nas relações de sexo e idade.  Na medida da globalização, observa-se uma perda de fronteiras geográficas e ideológicas.
Neste tempo de velocidade cósmica e comunicação instantânea, as notícias das mais variadas partes do universo se transformam, a um só tempo, em espetáculo a todo o mundo civilizado. Assim, os limites se afrouxam para todos os que desejam experimentar o outro lado, que os meios de comunicação, com o maior requinte, se encarregam de mostrar.
É o momento da ação à distância, da razão técnica e instrumental (GONZÁLES L., & SANTA BÁRBARA,C.,1991). Aperta-se um botão e tudo acontece, desde a notícia até a explosão de bombas em cidades inteiras.
Nunca se conheceu tanto sobre tudo. Já se descreve o estresse do excesso de informações.  Trata-se também do século da consciência da fragilidade humana, porque o ser humano se tornou tão poderoso, que já põe em risco a sua própria estabilidade neste planeta. Nesse contexto, a humanidade transborda para o cosmos, até por uma questão de sobrevivência.
Os paradigmas dos grupos sociais isolados passam a ser questionados e reformulados em função de verdades mais universais. Ocorre a uniformidade das culturas, que se expressa no sincretismo da linguagem, dos hábitos, em expressões estéticas de comportamento, permeando todas as classes sociais.
Para os adolescentes deste mundo sem limites, e que buscam viver novas formas de liberdade, a conquista da liberdade é a conquista dos próprios limites, é o triunfo da identidade.
Em meio aos lutos pelas perdas da infância e em processo da própria construção, eles defrontam com as barreiras da cultura pós-moderna e experimentam uma sociedade em crise de transição com características também adolescentes.
Em busca de referenciais, eles se deparam com o desmoronamento de todas as bases ideológicas que sustentaram até então a humanidade e serviram de esteio à revolucionaria expansão da tecnologia.
Trata-se de singular oportunidade do ser humano reescrever sua história, a partir da visão da própria infância em confronto com a realidade, e retomar a sua trajetória pela vida.
Esses adolescentes transportam também as vicissitudes da vida intra-uterina e da infância com todas as suas repercussões na construção de seu psiquismo.
Frente às ideologias contemporâneas, eles vão percebendo que este mundo novo faz emergir a transitoriedade e a fugacidade e vão se transformando nos seus mais genuínos representantes.
Ora, sentem-se como um bando de átomos-indivíduos fragmentados e acoplados, por mera casualidade, ora, tomados de sentimentos de futilidade, assumem os aspectos mais negativos e contraditórios da civilização, identificando-se com as personalidades mais doentias do planeta (OSORIO,L.C.1989).
Às vezes, emergem em estado selvagem e dilapidam construções humanas,  transgredindo as leis, que não reconhecem. Em seguida, tomam a forma de ‘contemplativos’, aderentes a discursos provisórios e fragmentados, tornando-se sujeitos também provisórios e fragmentados, em busca de uma identidade inalcançável.
Rotulados de ‘criaturas do futuro’, não encontram o seu lugar no mundo presente, porque este presente mal comporta os adultos que se digladiam pelos seus espaços. Servem, no entanto, de modelos para os adultos contemporâneos, que, contemplando os adolescentes, percebem neles a aparência jovem, que desejam perpetuar em si próprios.
Em contrapartida, os adultos do mundo contemporâneo vivem, na máxima intensidade, o luto pela juventude perdida e querem recuperar o tempo perdido. Observa-se a corrida a clínicas de rejuvenescimento, de cirurgias plásticas e de estética, além da busca de novos parceiros sexuais, que se contrastam pelas radicais diferenças etárias.
Há bem pouco tempo, a história registrava, através da iconografia, uma certa uniformidade das faixas etárias na Idade Média, acusando aquele tempo de tratar a criança como adulto em miniatura.
A imagem do tempo atual representa esta mesma perspectiva, mostrando, no entanto, adultos em boates de jovens e, como jovens, se comportando e vestindo.
Estes aspectos parciais, arrancados do sujeito, mostram que crianças e adolescentes têm se transformado, na sua maioria, em objetos de consumo da sociedade atual.
A tudo isso, somam-se os sentimentos dolorosos de solidão, desamparo e alienação, frutos dos diálogos humanos, cada vez mais, pouco significativos.
- Como se poderá constituir uma infância e uma adolescência sadias neste contexto histórico, político e social?
- Que identidade e que características de vínculos essas criaturas vão estabelecer a partir dessas relações?

2- A nova  família:

Não se pode negar que a igualdade de direitos conquistada pelas mulheres e outras minorias constitui, nesse momento histórico, importante evolução cultural, política, social e individual. Mas a crise instalada pela diminuição da autoridade paterna, faz emergir a criança com suas necessidades biológicas psicológicas e sociológicas, que se transforma no centro de todas as atenções e passa a ser considerada, neste século, a pessoa mais vulnerável de sofrer as conseqüências traumáticas dos distúrbios familiares e sociais.
A perda da hegemonia patriarcal faz despontar um novo tipo de poder constituído, o “Filiarcado”. Os filhos assumem o comando da família!
As mulheres alegam que deixaram o lar pelos filhos. É por eles que saíram em competição com os homens no enfrentamento das tarefas alheias ao lar.
Em um mundo exaurido de suas reservas de sustentação, é na busca de sobrevivência e conforto para a prole, que as mães abandonaram os próprios filhos.
Instaurada a Iconoclastia, destronado o Pai, em pleno caos, a mãe se recusa a assumir o seu papel de patriarca, mas realiza jornadas longas e  penosas de trabalho no enfrentamento das novas dificuldades emergentes.
Impõe-se, portanto, encontrar alternativas maduras e democráticas com o objetivo de evitar que a criança, em seu momento de ascensão, venha a perecer.
No Filiarcado, o filho é deixado aos cuidados da babá ou da creche. Nos intervalos, as crianças se deleitam com os programas de televisão. Programas que não são feitos para elas, mas que servem a interesses de alguns segmentos da sociedade, que exploram a mídia, seduzindo e condicionando as massas, com cinismo e sem qualquer limitação.
Instigados pela propaganda, os pais compram o que os filhos pedem. Não se sentindo competentes para atender às necessidades reais da família, dão prioridade ao supérfluo. Não podendo se dar, dão coisas.
Pai e Mãe, nesta nova era, não têm mais tempo. Trabalham em horário integral e estão convencidos de que valem pelo que produzem.
Não existem mais os horários de refeição. O casal e a família já não se encontram para debater as suas dificuldades. Os diálogos transformam-se em monólogos.
Em situação de stresse, os casais se separam e os filhos que se danem, disputados como bens de família nos tribunais de divórcio. Na era do Filiarcado, algumas crianças se adaptam, protegidas pelos avós, que lhes dispensam carinho e amor. Elas sobrevivem por uma capacidade pessoal de compreender os acontecimentos e vão construindo a sua trajetória pela vida apenas com uma dificuldade imensa de se vincular afetivamente a outras pessoas, temerosas de reviver situações anteriores de muito sofrimento.
Outras, já no primeiro ano de vida, apresentam distúrbios de sono, anorexia, irritabilidade, recusando-se a prosseguir no seu processo natural de desenvolvimento.
Superada essa fase inicial, sobrevivem com distúrbios de socialização e outros, seguidos de dificuldade escolar em momentos posteriores e culminam, na adolescência, com uma infinidade de graves distúrbios de conduta sociopática, que vão do furto à violência, das dificuldades com a lei à morte no trânsito.
A partir das vivências das mais variadas formas de carência afetiva, estas crianças saem à procura dos pais além dos limites do lar, onde, na verdade, eles se encontram. Assistimos, assim, ao nascimento de um novo tipo de criaturas: -”os meninos de rua”.

3- Quem são os Meninos de Rua?
Esses sujeitos são frutos da precariedade das relações humanas. Sejam de classe sócio-econômica alta ou baixa, eles só se diferenciam no que fazem, onde moram e como se vestem.
Uns furtam  os carros dos pais, outros furtam bolsas nas ruas. Uns povoam “os shoppings” das cidades, outros ficam nas rodovias. As suas histórias de vida são semelhantes, porque falam de abandono nas mais sofisticadas configurações e nas mais variadas formas de manifestação.
Apesar da constatação da freqüência cada vez mais elevada de condutas psicopáticas, nunca se conheceu tanto sobre o ser humano em suas necessidades psicológicas e sociológicas mais profundas.
Os pais, em seus desabafos nos consultórios médicos, relatam que não têm mais autoridade sobre seus filhos.
 - “Os filhos de hoje não honram mais Pai e Mãe” e nada têm em comum com aqueles que os geraram. Tudo isto é verdade!
Pais e filhos, dentro do paradigma contemporâneo, nunca se encontraram. Os filhos assemelham-se, é certo, aos programas de televisão que assistiram e à infinidade de babás que tiveram e muitas os deixaram chorando, corroídos pela dor, em momentos críticos de seu desenvolvimento, sem compreender porque eram abandonados.
Antes de serem afastados das babás, foram desamparados pelos pais, que não tiveram sensibilidade para compreender seus apelos, nas mais variadas formas de transtornos de conduta.
Na busca de soluções, prescreve-se, com força de lei, que o instinto maternal tem que ser ensinado e exercitado, desde a sala de parto até o chamado “Alojamento Conjunto”.
O aleitamento materno passa a ser incentivado, através de campanhas e publicações que  comprovam a sua superioridade sobre qualquer outra forma de alimentação. Na educação dos filhos, o amor é receitado em doses suficientemente adequadas com vistas a um  bom desempenho pessoal.
E muito mais se registra no ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, ordenamento jurídico que passa a reger os cuidados parentais, familiares e sociais para o estabelecimento de uma boa saúde e educação de crianças e adolescente, de forma a proteger os filhos dos pais e da sociedade em geral.
E os pais, perplexos, vão descobrindo, pouco a pouco, a sua valiosa importância na construção da personalidade de seus rebentos.
Enquanto isso, as estatísticas de mortalidade na adolescência, o abuso de drogas, os trantornos de conduta agressiva, as transgressões da Lei constituem os resultados mais atualizados dos esforços indiscriminados de transcendência da sociedade contemporânea, que tem aberto seus caminhos em meio às guerras, revoluções por disputa de poder e violência, instrumentados por uma tecnologia, que, bem conduzida, seria capaz de atender a todos os anseios humanos de vida e bem-estar individual e social. 

Referências Bibliográficas:

1. GONZÁLES, L., SANTABÁRBARA, C.. Ideas y Creencias del Hombre Actual. Santander: Editorial Sal Terrae. 1991. 190 p.
2. MAAKAROUN, M.F. A Profilaxia do Abandono. Clinica Pediátrica.v.17, n.3, p.8-20, março/abril 1993.
3. MAAKAROUN, M.F. Adolescência e Pós-modernidade. In: VII CONGRESSO BRASILEIRO DE ADOLESCÊNCIA. Gramado, 1993. p.237.
4. MAAKAROUN, M.F. O adolescente num mundo em transformação. In: I CONGRESSO NACIONAL DE SAÚDE DO ADOLESCENTE. Rio de Janeiro,1991. p. 53-55.
5. MAAKAROUN, M.F.; PAGNONCELLI, R.S., CRUZ, A.R. (Orgs.) - Tratado de Adolescência. Rio de Janeiro, Editora e Cultura Médica, 1991. 1002p.
6. OSORIO, L.C. Adolescente Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. 103p.

* Marília de Freitas Maakaroun, Médica, Pediatra, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Doutora em Medicina do Adolescente, Professora da Faculdade de CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS.

ÉTICA E ADOLESCÊNCIA

Hoje, mais do que nunca, tem-se a consciência de que o maior legado da humanidade para o mundo contemporâneo é a Liberdade.
Ela está registrada em sua mais genuína concepção na textura da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 1948.

 Quando se reflete sobre o dizer de VAZ (1993), que afirma que o

‘ETHOS é o corpo histórico da liberdade e tem o seu dinamismo inscrito na finitude das épocas e das culturas’,
 
conclui-se que o compromisso que se assume com a ética da pós-modernidade seja o de procurar conhecer, para se instituir, os limites do mundo atual em momento de transbordamento de plenitude da liberdade.

Se na estrutura do tempo histórico do ethos, o passado se faz presente pela tradição e o presente retorna ao passado pelo seu reconhecimento, a ética se constitui na face da cultura que se volta para a evolução da pessoa em sua máxima expressão de humanidade.
Ora, uma das características desta época é a negação do passado e a apologia do futuro na tecnologia da inversão do tempo.

 Os conflitos éticos do momento contemporâneo remontam do questionamento de verdades cristalizadas em estruturas rígidas do pensamento humano, cujas contradições foram levantadas, principalmente, por Marx e Freud.
Marx  proclamou que a consciência humana é sempre social e histórica e determinada pelas condições concretas da existência, concedendo à ideologia o papel que tinham os mitos e as teologias do passado. Segundo Marx, não são as idéias humanas que movem o mundo e a história, mas são as condições históricas que produzem as idéias e mais, a função da ideologia é ocultar a origem da sociedade, dissimular a presença da luta de classes, negar a desigualdade social e oferecer a imagem ilusória da sociedade como originária de um contrato social entre homens livres e iguais.

Freud  descreveu a trajetória da desilusão humana, registrando os golpes que a humanidade tem sofrido em seu narcisismo.
Segundo o pai da psicanálise, o primeiro golpe remonta de Copérnico que provou que a terra não é o centro do universo. O segundo veio com Darwin, que demonstrou que o homem tem uma relação estreita com os outros animais e não se constitui no verdadeiro fim da criação do mundo. O terceiro golpe é a descoberta do inconsciente, que desmascara a ilusão das pessoas de que o exercício de sua praxis seja consciente, ou seja, de que pensam e agem conforme a sua própria vontade e razão.
A partir destas aporias, as questões éticas da pós-modernidade são assim formuladas:
-Pode o ser humano ser ético, não sendo livre e estando condicionado pelas situações políticas e históricas? -Se o ato moral é aquele em que o indivíduo age consciente e livremente, os atos praticados por um indivíduo condicionado pelo inconsciente podem ser considerados éticos? - Como a consciência poderia se responsabilizar pelo que desconhece e que jamais se tornará consciente?

Em meio a estas indagações, emerge a adolescência de hoje sedenta de liberdade e desejando viver na plenitude todas as suas potencialidades humanas. No desconhecimento dos próprios limites, corre risco de vida e não encontra nos adultos as respostas éticas essenciais que nortearão a sua conduta, uma vez que também estes vivem a crise da falta de limites e não conseguem encontrar respaldo no passado para as questões que se levantam no presente.

Os adultos de hoje se percebem dispersos, alienados nos seus discursos de muita precisão, mas de bem pouca convicção. Sentem-se infelizes, porque não se reconhecem na pluralidade dos caminhos que podem seguir, e mais pobres ainda, porque se percebem desamparados de si e em colapso da própria integridade. A carência de si gesta sentimentos de impotência, de confusão e de fragmentação.
Estas pessoas trazem a consciência de que podem se ajustar, assim como os escravos em outras épocas se ajustavam, diminuindo o seu potencial intelectual e moral.

Mais uma vez, é na face da cultura, que se volta para a liberdade, que se vai buscar reconstruir a integridade humana na busca da verdade.
Somos livres e éticos porque aprendemos a discriminar as fronteiras da liberdade, tendo como critério a Declaração Universal do Direitos Humanos, que nada mais é do que a transcrição de dois mil anos de anseios humanos.

É no reconhecimento do finito e do relativo, na consciência da genuína dimensão, que o ser humano há de se perceber digno do infinito e do absoluto.

Em meio à pluralidade dos desejos humanos, os valores éticos só poderão ser aqueles que devolverão o ser humano a ele mesmo, atento para que os seus desejos correspondam às verdadeiras necessidades humanas.

Assim constituídos, haveremos de caminhar por entre os jovens não para lhes dar do nosso saber, mas envolvê-los com a nossa ternura, a nossa fé, a nossa autorização libertadora de forma que eles, contemplando a nossa transparência, adquiram a certeza de que haverão de alcançar os limites de seu próprio saber, de sua própria experiência e de seu próprio ser.

 

*Marília de Freitas Maakaroun, Médica, Pediatra, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Doutora em Medicina do Adolescente, Professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

O FENÔMENO DO APRENDIZADO

Marília de Freitas Maakaroun*

“ Bom é tudo que tem valor de sobrevivência”
Konrad Lorenz,1986

Visão arqueológica:
A aprendizagem é um processo contínuo, complexo, através da qual o sujeito adquire conhecimento do mundo externo e interno. 
Trata-se de uma ação contínua, na maior parte tempo, inconsciente, que envolve o sujeito e o ambiente em dialética operacional, tendo o seu início ainda no útero e se arrasta em sucessão de mudanças, que vão se  concretizando até o final da vida. 
A capacidade de aprender não é uma prerrogativa dos humanos, porque também pode ocorrer em outras espécies.
A palavra “aprender” vem do latim apprehendere e é referida no “Michaelis” como  “ficar sabendo, reter na memória, tomar conhecimento de…”
Apesar do dIcionário citar que a aprendizagem compartilha com a memória aspectos comuns, esses dois domínios se diferenciam na estrutura e função. Do ponto de vista da estrutura, a condição de aprender está ligada à capacidade de utilizar, organizar e promover redes de sinapses e a memória, à capacidade de armazenar, fixar os produtos, a experiência da aprendizagem. Do ponto do vista da função, a aprendizagem convoca a memória ao utilizar experiências adquiridas e arquivadas nos neurônios, para a realização de novos empreendimentos (IZQUERDO, I., 2004).
Nesse, contexto, faz-se necessário também se referir à inteligência, como a estratégia evolutiva da natureza, que permite ao sujeito utilizar, da melhor forma possível, os seus recursos, em processo integrado contínuo, de aprender e memorizar para sobreviver.
A adaptação se refere à suposta estabilidade adquirida pelo organismo após suas ações sobre o meio, que resultam em melhor condição de sobrevivência.
Segundo LORENZ,K.,1986, qualquer definição de aprendizagem tem que conter uma condição concreta indispensável, que é o caráter de valor de sobrevivência ou poder de adaptação. LORENZ considera a “aprendizagem uma função específica que alcança um valor definitivo de sobrevivência”.
Nesse processo, é importante levar em conta o plano hereditário contido no genoma e as circunstâncias ambientais indispensáveis à sua realização.
LORENZ cita que não são somente os tijolos e cimento que constroem uma catedral, mas também o plano do arquiteto e, mais, as modificações adaptativas durante a realização do projeto, que podem tomar a forma de um novo aprendizado.
Assim, na dinâmica da dialética do ensino/ aprendizagem, o que se ensina e o que se aprende têm que ter características de subsistência, portanto, “valor de sobrevivência”.
Essa condição essencial tem que ser tornada explícita, tanto a nível docente, quanto discente, mesmo que, paradoxalmente, na maior parte do tempo, seja inconsciente.

Dilemas da natureza e cultura:
Acredita-se que, desde que a cultura assumiu a tarefa de dar continuidade ao desenvolvimento evolutivo que a natureza iniciou, não se detecta modificações visíveis importantes, relativas ao genótipo e fenótipo humanos.
Tem-se a impressão que a cultura dispensou a natureza do trabalho de transformações sucessivas, que vinha realizando, arduamente, há milhares de anos.
O senso comum faz a suposição de uma “natureza cega”, que conduz, ao acaso, deixando vestígios, pistas e sinais de probabilidade e, muito pouco, de certezas.
Se a natureza é inábil para prever o que pode ocorrer no futuro, se não existirem linhas condutoras, que possam guiar a espécie para objetivos de valor de sobrevivência, o sujeito pode se perder.
 Assim, o bebê, buscando o leite materno, encontra a mãe, que o amamenta e lhe dá instruções sobre  a vida.
No entanto, as proposições do espetáculo do jogo de espelhos da cultura têm exibido uma multidão de  naturezas sincréticas, enganadoras e camufladoras da ordem genética e ambiental necessárias ao sujeito.
O desamparo do bebê permite que ele possa se satisfazer com “sorvete”, em lugar do leite materno, desde que guarde as características estéticas, branco e doce, do que ele deseja.
A lente da cultura revela que os desejos podem substituir as reais necessidades e corrompe o sujeito, na proporção em que mostra a suposta realidade no formato de uma vitrine de fantasias. 
As metáforas enganosas da cultura podem ser devastadoras, para aqueles que só se encontram através de “pegadas deixadas na areia”.
Segundo DAKWINS, R. (2001), a natureza prevê o bem do indivíduo, portanto, cabe à cultura, tratar do bem-estar e do bem-ser universal da espécie humana.

Aprendizagem e níveis de maturação:
Segundo PIAGET, J. (1993), na proporção da maturação corporal, a vida mental do sujeito evolui de níveis mais primitivos de integração até outros níveis cada vez mais complexos de funcionamento. Em todos os níveis, identificam-se estruturas e estágios de desenvolvimento, que buscam equilíbrio em graus crescentes. Em todas essas condições, a ação pressupõe um interesse, uma motivação, que a determina e é variável, segundo o estágio do desenvolvimento.
Essa motivação nasce da confiança básica na existência gerada na relação mãe e filho, em encontro primordial dos humanos, em época que não deixa lembranças. Desse tempo, emerge a energia fundamental, que alimenta a auto- estima e conduz ao auto-reconhecimento, através da perene fantasia de um “sentimento oceânico”, que busca um “paraíso perdido”.
A evolução do sujeito torna-se uma contínua busca de estados  cada vez mais harmônicos e transcendentes, e a ação humana concretiza um movimento contínuo para atingir estágios de maior “reajustamento e equilibração”.

Aprendizagem e integridade de estrutura:
O desenvolvimento cerebral humano começa nas primeiras semanas desde a concepção e continua após o nascimento. Isso é visível na criança, que, aos cinco anos de idade, apresenta um volume cerebral que corresponde a 95% do volume do adulto.
A plasticidade dos neurônios tem sido demonstrada a partir de achados recentes, que confirmam que a sinaptogênese e suas ramificações, a mielinização das estruturas axônicas dos neurônios continuam ocorrendo durante toda a vida.
O crescimento máximo de novos neurônios se completa até o nascimento, assim como os processos de migração celular e morte neuronal programada (apoptose), mas as sinapses, a mielinização e a arborização dentrítica dos axônios se perpetua  ao longo da existência.
Apoptose é o fenômeno, através do qual os neurônios, em determinadas condições,  se destroem.
É provável que cerca de um trilhão de neurônios sejam formados entre a concepção e o nascimento e que, sob comando genético, 100 bilhões restem no cérebro adulto. Isto significa que 100 bilhões de neurônios são selecionados de um trilhão para migrar para os locais determinados e exercer a função definida pela espécie.
Esse processo é considerado como parte natural do desenvolvimento do sistema nervoso imaturo. A hipótese central é que sejam eliminados os neurônios indesejáveis para proteger os neurônios saudáveis, o que ocorre por competição pela sobrevivência, por ocasião da migração, inervação e abastecimento de neurônios por substâncias tróficas.
Na proporção do desenvolvimento cerebral, os neurônios continuam alterando os seus alvos de inervação, através de crescente comunicação, reparação, regeneração e reconstrução de sinapses, conforme a demanda de tarefas dos neurônios.
As sinapses são formadas em velocidade intensa do nascimento até os seis anos de idade. Durante os dez anos seguintes até o final da adolescência, o cérebro reestrutura e elimina de forma competitiva essas sinapses, deixando, na fase adulta, cerca da metade a dois terços dessas estruturas. Isso significa que podem restar cerca  cem trilhões de sinapses no cérebro e até, para alguns neurônios, em torno de dez mil sinapses (STAHL,S.M.,2002).
Essa condição faz parte da programação genética que, durante o neurodesenvolvimento, determina que o cérebro selecione quais as conexões que serão mantidas e quais serão destruídas.
Quando este trabalho é realizado adequadamente, o indivíduo progride com sucesso e evolui sem seqüelas para a idade adulta.
Essas conexões também podem ser modificadas durante toda a vida, através dos processos de aprendizagem.
No entanto, a neurobiologia molecular tem demonstrado que erros na seleção de conexões sinápticas e na própria programação genética podem levar a transtornos do neurodesenvolvimento e interferir nos processos de aprendizagem, o que também pode ocorrer em decorrência de reações orgânicas às experiências individuais, através do uso de drogas e outras condições deletérias ambientais (STAHL,2002; KANDEL & SCHWARTZ,1997).
Os distúrbios de aprendizagem acompanham os transtornos mentais, quando se identificam condições tais como:
1- Vulnerabilidade genética;
2-  Eventos estressores desencadeantes na vida do indivíduo;
3- Personalidade do sujeito, capacidade de lidar com problemas e apoio social;
4- Outras influências ambientais sobre o indivíduo e seu genoma, incluindo vírus, toxinas e diversas doenças.
A expressão bioquímica da vulnerabilidade a um transtorno ocorre quando muitos genes diferentes formam determinadas proteínas em quantidades não correspondentes, em locais e momentos inadequados, o que ocasiona estruturas e funções anormais nos neurônios, mas, mesmo nestas condições, o transtorno pode ocorrer na dependência de outros fatores não genéticos.
De um modo geral, as pessoas que desenvolvem uma boa capacidade de lidar com problemas, uma personalidade socialmente bem adaptada podem reduzir a demanda biológica sobre o código genético para a expressão da doença mental.
No entanto, determinados estressores podem ser tão intensos, como situações de exposição a estupro, guerra, testemunho de atrocidades, que o genoma, mesmo com estrutura sólida, pode ter a sua ordem perturbada e ocasionar a expressão de um transtorno mental, tais como aqueles casos referidos como de “estresse pós-traumático” (GRAEFF, F. G. & BRANDÃO, M. L.,1999).
Tem sido descrito que a dislexia, a esquizofrenia, a epilepsia, o retardo mental e outros distúrbios do desenvolvimento são condições que, em parte, resultaram de neurônios que se perderam nos processos de podas sinapticas ou migraram de forma inadequada durante o desenvolvimento fetal ou que a sinaptogênese possa ter sido interrompida, precocemente, durante o desenvolvimento.
Outros problemas do neuro-desenvolvimento podem resultar da sinaptogênese anormal. No processo de acréscimo, manutenção e remoção de sinapses pode acontecer do axônio ser enviado para alvos pós-sinapticos errados. Nestes casos, sendo a sinapse a estrutura da neurotransmissão química, a transferência de informações do cérebro depende da boa conexão destas estruturas.
Essas falhas podem ser causadas por genes que indicaram direções inapropriadas, constituindo um erro genético de programação herdado ou ser adquirida no ambiente uterino após ingestão pelas mães de cocaína, álcool, exposição à radiação e outros agentes tóxicos.
Pesquisas têm sido realizadas com o objetivo de se identificar os genes ou produtos gênicos anormais que estão relacionados com a destruição de neurônios. O tratamento desses casos consistiria em se tentar interromper a sua ação ou bloquear o efeito dos produtos gênicos inadequados e a utilização de novas drogas para interromper doenças degenerativas do sistema nervoso, salvando neurônios em degeneração, estabelecendo novas sinapses e restabelecendo sinapses pré-existentes.
Acredita-se, também, que seja possível ativar a produção ou conseguir substitutos para os produtos gênicos desejáveis. Outro ponto de referência para novos estudos está centralizado na tentativa de se identificar fatores neurotróficos que possam salvar neurônios em degeneração e interromper a evolução dos transtornos neurodegenerativos. (GRAEFF & BRANDÃO,1999; STAHL,2002).

A dimensão psicológica da aprendizagem:

Aprender é, primordialmente, apreender, incorporar, devorar o seio materno, o leite que nutre e dá prazer e, depois, a mãe, que se ama e com quem se identifica.
Posteriormente, aprender é desejar e buscar os objetos de amor da mãe sem consciência objetiva, mas afetiva, intuitiva, como a “natureza cega” constrói o seu caminho em sua própria direção, através dos sentidos.
E, finalmente, com a emergência da consciência, o salto radical e metafórico do mundo humano para o mundo das coisas, do leite materno para o “leite da sabedoria”, dos orifícios maternos para os “tubos de ensaio” da ciência.
Aprender é primordialmente ter fé, ou seja, confiar sem ter consciência, mas tendo certeza de que o único caminho que se conhece é o aconchego dos braços maternos.
Assim, a natureza definiu para os humanos, nos registros de sobrevivência do nascimento, o continente seguro, que eles haveriam de reconhecer e deveriam aportar.
Então, primeiro amar a mãe, que nutre, cuida e protege, acreditando estar se cuidando, se nutrindo e se protegendo.
Depois, amar tudo que a mãe ama e desejar conhecer mais, transcendendo do útero materno para a extensão mais ampla da família e da sociedade.
Finalmente, amar o conhecimento que remete ao amor de si e do mundo e sentir prazer na presença dos que ensinam e aprendem como a conseqüência natural do desenvolvimento humano.
Assim, aprender é também continuar a busca da própria maturidade, da identidade, da realização, da sabedoria.
Alcançar todas as etapas do desenvolvimento cognitivo significa integridade de estrutura, funções e afetos. É a possibilidade da comunhão primordial da espécie humana no compartilhamento da cultura construída pelos humanos.

Aprendizagem e valor social:

Aprendizagem é também todo esforço que se realiza na ação de se compreender, o outro e a realidade. A aprendizagem é um ato visível e necessário no campo sociocultural, apesar da sua coexistência nas outras  áreas de conduta.
A aprendizagem só se realiza através do desenvolvimento de relações pessoais harmônicas consigo próprio e  com o ambiente vivo e inorgânico, que rodeia o sujeito.
A primeira relação social do ser humano é com sua mãe e, a partir dessa matriz, vão se configurar todas as suas outras relações com o universo.
A criança de tenra idade, que entra a primeira vez na escola, vê essa instituição como o próprio lar, a professora como sua mãe e os colegas, como irmãos. Inicialmente, ela vai tentar repetir as mesmas relações que constituem a sua forma de ser e de seus familiares no seu ambiente primordial.  De seu sucesso ou fracasso nessas relações pode depender o seu sucesso ou fracasso escolar.
O diálogo permanente amoroso e compreensivo vai, gradativamente, mostrando à criança as diferentes dos diversos âmbitos da sociedade e, assim, fortalecida, ela vai se  instrumentando para se relacionar harmoniosa e adequadamente com os outros, em confronto constante de suas vicissitudes subjetivas com a realidade.
A aprendizagem no contexto da sociedade contemporânea:
A reflexão sobre o momento histórico atual nos aponta a existência de uma sociedade de informação, de difusão através da mídia, mais do que de conhecimento, que prioriza o circunstancial e que propõe uma razão tecnológica, de puxar alavancas e apertar botões.
O componente sociocultural relevante tem sido identificado com a aparência, a imagem, a propaganda, que podem ser consumidas no espetáculo do mercado globalizado e impessoal.
A instabilidade do conhecimento reduzido ao provisório, fragmentado e aleatório, transborda como desafio de convivência, pois os sujeitos se percebem desamparados e descartáveis, vivenciando o empobrecimento das relações interpessoais, exatamente, onde se ancora a compreensão e o entendimento de si e do outro.
A ideologia do novo mundo mantém a educação marginalizada e descarta qualquer aprofundamento em ações, que o discurso pedagógico suscita frente aos novos significados da família/ escola/sociedade/ cultura/ linguagem e poder, porque tudo se reduz a apelo publicitário, que se impõe como verdade, através das forças sedutoras e fragmentadas das imagens.
Perdidas as dimensões pessoal, social e histórica, a dimensão tecnológica uniformiza os níveis humanos e profissionais, impondo modelos estereotipados desde a aparência externa do vestir até a consciência interna de cidadania, transformando o espaço social em mais um arquivo de memória do consumidor.
Tem- se a impressão que os fragmentos ganham vida na regressão psicótica das novas relações. A nova cultura, perdendo seus limites no transbordamento de suas muitas possibilidades,  devolve à natureza as suas formas primitivas de consciência corporal e sensorial e o ser humano retorna, psicótico, às questões primitivas de suas origens mitológicas (SILVA,M.1992).
A partir dessas postulações, acredita-se que a aprendizagem, em pleno século XXI, continua sendo um grande desafio. A ciência se distancia do senso comum e as disciplinas que tratam do aprendizado se confundem entre os mitos e a realidade das coisas.
Natureza e cultura continuam se digladiando, assim como os neurocientistas e os educadores, ao perderem a necessária integração, perdem-se também a nível ético, tornando-se inacessível a compreensão dos processos mais simples.
As duas disciplinas confirmam a plasticidade cerebral, a provável existência de “períodos receptivos” ou “janelas de oportunidade” para se construir o saber oportuno em ambiente adequado. Ambas questionam o papel dos hemisférios cerebrais, com seus atributos típicos, pois o cérebro é um sistema integrado, que não funciona isoladamente, mas ainda não conseguem atingir o ser humano total, em suas necessidades de abrangência integral.
A partir dessas considerações, para se iniciar um debate, em que a integração e cooperação de todos nos permitam ir além de nossas fronteiras, poderíamos questionar:
- Será que a metodologia educacional do século XXI esteja se contrapondo à forma do cérebro de aprender? (OCDE,2003)

Referências Bibliográficas:

1. DAWKINS, R.- O Gene Egoísta. v 7.  Belo Horizonte- Rio de Janeiro. Editora Italiana. 2001. 230p.
2. GAZZANIGA, M. S. & HEATHERTON, T.F. – Ciência e Psicologia: mente, cérebro e comportamento, Porto Alegre, ARTMED, 2005, 624p.
3. GRAEFF, F. G. & BRANDÃO, M. L. – Neurobiologia das doenças mentais, 5º ed., São Paulo, Editora Lemos, 1999, 254p.
4. ISQUERDO, I. A arte de esquecer: Cérebro, memória e esquecimento, Rio de Janeiro,Vieira & Lent, 2004, 114p.
5. KANDEL, E. R. & SCHWARTZ, J. H. – Fundamentos da Neurociência e do Comportamento, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1997, 591p.
6. LORENZ, K. – Evolução e Modificação do Comportamento, Rio de Janeiro, Editora Interciência LTADA, 1986, 110p.
7. OCDE – Compreendendo o cérebro, São Paulo, Editora Senac, 2003, 178p.
8. PIAGET, J. -  Seis Estudos de Psicologia, 19º ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1993, 152p.
9. SPITZ, R.A. - O primeiro ano de vida. 2.ed. São Paulo, Martins Fontes, 1978.  345p.
10. STAHL, S. M., - Psicofarmacologia: Base Neurocientífica e Aplicações Práticas, 2ed., Rio de Janeiro, MEDSI – Editora Médica e Científica, 2002, 617p.
11. SILVA, M. -  Educação, modernidade e pós-modernidade. PERSPECTIVA. Forianópolis, n.18: 61-76, dez., 1992.
12. WALLACE, R. A. – Sociobiologia o Fator Genético, São Paulo, Ibrasa, 1985, 236p.
* Marília de Freitas Maakaroun
Médica, Pediatra, Psiquiatra da Infância Adolescência
Doutora em Medicina do Adolescente
Professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais
Belo Horizonte, 21 de novembro de 2005.
 

ADOLESCÊNCIA: UMA REEDIÇÃO DA INFÂNCIA

Marília de Freitas Maakaroun*

Tem-se a impressão que a cada época corresponderia uma idade privilegiada…: a juventude, a idade privilegiada do século XVII; a infância, do século XIX e a adolescência, do século XX..”.
Philippe Ariès)(1975)

Crescer é por natureza um ato agressivo.”
Winnicott,(1950-5)

1.1. REFLEXÕES CONCEITUAIS:
O reconhecimento de uma etapa da vida, marcada pela transitoriedade, entre a infância e a idade adulta sempre existiu em todas as sociedades e durante todas as épocas da história. Mas as fronteiras da adolescência têm variado, apesar de que, em um passado relativamente recente, ela ainda tenha permanecido como um período curto da existência sincreticamente unido à infância e à juventude.
‘É natural que a adolescência fosse negada e a velhice desprezada naqueles tempos em que se vivia em média trinta anos de idade’ (Ariès,P., 1975).
Nos dias de hoje, a expectativa de vida das pessoas aumentou de 30 para 50% em vários países e, observa-se, entre outras conquistas, o controle dos processos mórbidos e a queda da mortalidade infantil. Como conseqüência, emerge a possibilidade de se redefinir em grandes linhas as fronteiras da vida e vão-se demarcando com mais nitidez as estruturas demográficas. Neste contexto contemporâneo, a adolescência se impõe pelo seu contigente populacional em crescente expansão e pelas suas expressões peculiares de conduta.
No dizer de Philippe Ariès(1978), “a adolescência se expande, empurrando a infância para trás e a maturidade para a frente, e vamos passando de uma época sem adolescência para outra, em que a adolescência é a idade favorita”.
Atualmente, a Organização Mundial de Saúde circunscreve a adolescência à segunda década da vida (10 a 19 anos) e considera que a juventude se estende dos 15 aos 24 anos de idade. Este conceito recente permite ainda designações ambíguas, tais como adolescentes jovens (15 a 19 anos) e adultos jovens (20 a 24 anos). A utilização de critério cronológico convencional se ajusta à necessidade de se identificar os requisitos que orientem a investigação epidemiológica, as estratégias de elaboração de políticas de desenvolvimento coletivo e as programações de serviços sociais e de saúde pública.

1.2. O INÍCIO DA ADOLESCÊNCIA E A PUBERDADE.
A delimitação cronológica ignora os fatos individuais e responde mais a fatores culturais e socioeconômicos. É importante ressaltar que os critérios biológicos e psicológicos também devem ser considerados no enfoque conceitual da adolescência.
Hoje, em nossa cultura, existe o consenso de que os primeiros indícios de maturação sexual introduzidos pela puberdade marcam concretamente o início da adolescência. Todo este processo se dá a custa de interação de fatores genéticos e ambientais, que atuam desde a vida fetal até a idade adulta. A eclosão puberal ocorre em um tempo individual e é regulada, principalmente, por mecanismos genéticos e neuro-endócrinos.
A protusão do mamilo, nas meninas, e o aumento do volume testicular, nos meninos, são os primeiros sinais morfológicos da puberdade.
As transformações físicas resultantes do desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários, as modificações metabólicas e da composição corporal, além do notável crescimento pondo-estatural são aspectos fundamentais da metamorfose corporal da criança em sua inevitável trajetória para a vida adulta.
Seguem, em uma seqüência quase invariável, todos os eventos da maturação sexual, sistematizados por TANNER (1962). O final da puberdade coincide com a aquisição da capacidade reprodutiva, a fusão das epífises ósseas e o completo crescimento do indivíduo. Estes eventos, naturalmente, não encerram a adolescência, que transcende seus aspectos somáticos, e se concretiza na amplitude da elaboração de manifestações psicológicas e sociológicas, sintetizadas nas reformulações de caráter social, sexual, ideológico e vocacional, impostas por estas transformações corporais.
O final da adolescência continua sendo ditado por imperativos sociais, que vão desde as exigências da escolaridade impostas pela qualificação profissional até as flutuações do mercado de trabalho, tornando-se claro que a inserção do adolescente na sociedade adulta escapa ao indivíduo e à família.

1.3. O FINAL DA ADOLESCÊNCIA E OS RITOS DE PASSAGEM
Trabalhos de antropologia têm demonstrado que, na maior parte das sociedades primitivas, existem cerimônias que introduzem os adolescentes no mundo dos adultos. A literatura etnológica revela a existência de ritos de iniciação em que a idéia do renascimento ocupa o lugar central. Este renascimento, com definição explícita de seu novo estatuto, reveste-se de grande importância quando se consagra muita energia à transformação do jovem num adulto socializado e bem adaptado à sua cultura. Desta forma, os mitos, as crenças, os valores do cidadão são assegurados através de verdadeira educação cívica. Estes ritos, de curta ou longa duração, contêm uma simbologia de alcance social, porque eles introduzem e promovem a integração do jovem às regras sociais e políticas da estrutura institucional de sua cultura, assegurando o seu reconhecimento por parte dos outros membros da sociedade.
Estas observações contrastam-se com o que se verifica hoje na sociedade ocidental, em que a passagem à vida adulta não está institucionalizada. Os poucos ritos de iniciação existentes implicam em aspectos parciais do indivíduo e a transição entre a infância e a idade adulta se mantém em aberto, num contexto de ambigüidade, que, muitas vezes, perturba a evolução do jovem na direção da maturidade.

1.4. A PERSPECTIVA HISTÓRICA
1.4.1- Stanley Hall (1844-1924)

Na literatura pesquisada, HALL é considerado um dos primeiros a propor uma teoria da Adolescência, como campo distinto do conhecimento, usando método científico em seu estudo .
Influenciado pelas descobertas de Darwin e pela teoria de Haeckel, segundo a qual a ontogênese recapitula a filogênese, ele aplicou o mesmo princípio ao desenvolvimento pós-natal. Para Haeckel, o embrião humano apresenta uma sucessão de características respectivamente semelhantes às dos peixes, dos anfíbios, dos répteis e dos mamíferos inferiores. Para HALL, o indivíduo revive, durante o seu desenvolvimento, etapas que correspondem a estágios históricos primitivos de vida da espécie humana até as mais recentes modalidades de expressão da maturidade. Ele afirma que o desenvolvimento é geneticamente determinado por forças internas, que definem um padrão inevitável, imutável e universal de conduta, apesar do meio ambiente. Portanto, o adulto não deve interferir no processo natural de crescimento humano.
Adotou uma classificação dos estágios do desenvolvimento semelhante à proposta por Rousseau.
Nomeou-os: Primeira Infância, Infância, Juventude e Adolescência.
• A “Primeira Infância” corresponde aos primeiros quatro anos de vida. Neste espaço de tempo, a criança revive, através do engatinhar e da conduta sensório-motora, a fase animal da espécie humana, quando o homem, à semelhança do macaco, caminhava sobre quatro pernas.
• A “Infância” é o período de quatro a oito anos de idade. HALL o comparou à época cultural em que a pesca e a caça eram as principais atividades do homem das cavernas.
• A “juventude” é o tempo que vai dos oito a doze anos e corresponde ao estágio em que a criança revive “a vida monótona dos selvagens” de há muitos milênios.
• A “Adolescência” é a etapa da existência entre doze e vinte e cinco anos. HALL descreveu-a como um período de “tempestade e tormenta”. Dentro da teoria de recapitulação, a adolescência corresponde à época em que a raça humana passou por um período intermediário entre o primitivo e o civilizado, de turbulência e crise, transição necessária para o renascimento de características mais elevadas e mais plenamente humanas.
No final da adolescência, ponderou que o indivíduo recapitula o estágio inicial da civilização moderna e alcança a maturidade, acenando com a possibilidade de uma continuação indefinida do aperfeiçoamento humano.

1.4. 2 - Anna Freud (1895 - 1982)
As contribuições psicanalíticas de ANNA FREUD para a compreensão da Adolescência estão intrinsecamente ligadas às de S. FREUD (1856-1939).
Ela também utiliza o princípio da recapitulação, mas em uma versão diferente, porque não se trata de reeditar parte da história genética da humanidade, mas parte do próprio passado do indivíduo.
Diferentemente de Hall, ela considera que não é possível deixar que a criança se desenvolva, sem se dar atenção à sua educação. Ela vê a criança como um escravo do princípio do prazer, que exige a gratificação imediata de qualquer necessidade emergente. Deixa claro que o bebê já vem dotado, desde o nascimento, de um reservatório de impulsos biológicos básicos (id) e que toda existência humana está centrada em torno de uma luta entre estes impulsos instintivos da natureza humana e as suas tendências mais civilizadas.
Freud, S. divide o ciclo vital humano em fases distintas, mas considera que cada uma delas é marcada pela emergência de um aspecto diferente da sexualidade humana. Assim, a fase oral, anal e fálica são as três fases iniciais, que posteriormente, serão integradas à genitalidade adulta.
A crise da adolescência se traduz pelo reaparecimento na puberdade de conflitos sexuais que ocorreram na infância, e, o adolescente reedita todas as etapas anteriores da sexualidade infantil, percebendo a intensidade da emergência destes conflitos. ANNA FREUD deixa claro que a ‘lendária turbulência’ dos anos da adolescência pode ser atribuída ao fato de que, nesta fase da vida, há um confronto entre um id forte e um ego relativamente fraco.
Com a finalidade de controlar a súbita eclosão da libido, o adolescente aciona certos mecanismos de defesa, que se manifestam em condutas típicas deste momento evolutivo.
Assim, o adolescente oscila entre o desejo de dependência e independência, sentindo-se ora desprotegido como um bebê, ora necessitando se afirmar como um adulto. Pode também tornar-se excessivamente sujo ou excessivamente limpo e pode atuar intensamente a nível da sexualidade ou exibir intenso pudor .
O ascetismo do adolescente representa uma desconfiança generalizada a todos os desejos instintivos, que incluem, além da sexualidade, a alimentação, o sono e outros hábitos. A intelectualização conduz o adolescente a mudanças de interesse das questões concretas do corpo para as abstratas.
ANNA FREUD observa que os assuntos que os adolescentes preferem debater representam os seus próprios conflitos internos, elevados a um plano intelectual. “Uma vez mais, o cerne da questão é como relacionar o lado instintivo da natureza humana com o resto da vida, como decidir entre deixar-se levar pelos impulsos sexuais ou renunciar-se a eles, entre revoltar ou submeter a todas as autoridades ou entre viver a liberdade e a restrição”. Assim, ao invés de encarar os seus sentimentos renovados de hostilidade com o pai, o adolescente pode condenar-se a denunciar a tirania de todas as autoridades.
Com relação às ligações afetivas dos adolescentes, ela afirma que a transitoriedade destas relações é um indicativo de seu caráter defensivo. Durante a adolescência, todos os velhos desejos edipianos reaparecem e o jovem se defronta com a atração pela mãe e os sentimentos conflitivos com relação ao pai. A opção é evitar os pais e buscar novos objetos de amor. Assim, os amores apaixonados, os romances, os episódios de idolatria de um herói representam tentativas de preencher o vazio emocional gerado pela falta dos pais.
ANNA FREUD observa que as manifestações da crise da adolescência são diferenciadas pelos seguintes fatores:
- A maior intensidade do id, que acompanha os processos fisiológicos da Puberdade.
- A grandeza da capacidade do ego de enfrentar o id, competindo ou cedendo às forças instintivas.
- A eficiência dos mecanismos de defesa à disposição do ego.

1.4.3- Erik Erikson (1902 -1994)
A adolescência tem uma posição de destaque na teoria de Erikson, porque ele considera esta fase da vida como particularmente decisiva na formação da identidade do ser humano.
Para ele, a identidade se revela como a consciência crescente de um círculo, sempre mais amplo de pessoas significativas para cada indivíduo, desde a mãe até a humanidade. Tal processo permite ao ser humano o seu reconhecimento histórico e a certeza de sua condição de ser uma pessoa única, portadora de um passado e um futuro também pessoal para si mesmo.
A teoria de Erikson se apoia no conceito do desenvolvimento a partir de estágios, que ocorrem em uma seqüência mais ou menos previsível e que são governados por um tipo de mecanismo inato ou fator maturacional, referido como princípio epigenético. Ele afirma que tudo que cresce tem um plano básico, sobre o qual irão se erguer as partes componentes. Cada uma delas tem o seu momento de ascensão, até que todas se integrem para formar um todo funcionante.
Considera que a interação entre o biológico e o social em todas as culturas é que produz a personalidade humana, que se torna um processo dinâmico e contínuo que começa no berço e termina no túmulo.
Identifica oito estágios da vida, que ele denomina idades do homem e constrói um diagrama epigenético, tendo a adolescência como centro e considerando a contribuição de cada um destes estágios à sua estrutura. Segundo Erikson, a adolescência recapitula todas as etapas vividas pela criança e antecipa as que virão na vida adulta.
Denomina cada estágio da vida de “conflito nuclear” ou “crise normativa”, mostrando que cada um destes momentos deixa a sua marca no indivíduo e na sociedade, através de instituições e valores.
• Primeiro estágio: Confiança versus Desconfiança
Nesta fase da vida, a criança estabelece com o seu ambiente uma modalidade “incorporativa” de relação. Ela incorpora com os olhos, com os ouvidos, com a pele, com as mãos, enfim, com todos os sentidos e o corpo, tudo o que possa produzir sensações agradáveis ou desagradáveis.
Para Erikson, esta modalidade de funcionamento transcende “o comer e o sugar” da “fase oral”, englobando, na sua abrangência, as manifestações do ego.
Afirma que o conflito nuclear confiança versus desconfiança é gerado na interação da criança com o mundo, à medida que ela aprende a contar ou não contar com as pessoas que cuidam dela, a confiar ou não confiar na mãe, como provedora da vida.
O bebê evolui de um vínculo humano, primordialmente biológico, para um vínculo social, que constitui a origem de todas as outras relações que ele será capaz de desenvolver ao longo de sua vida. Ao nascimento, ele se encontra em uma fase sincrética, de indiferenciação com o mundo. É através da interação com o seu ambiente imediato, mãe ou cuidadora, que ele dará sentido ao que vê, mas não reconhece; ao que toca e não consegue identificar; ao que ouve, mas não entende. Se o ambiente é percebido como acolhedor, ele garantirá o desenvolvimento da auto-estima, porque cada conquista motora e funcional será compartilhada e contemplada como uma realização pelo seu meio social. Erikson entende que “a criança que se torna capaz de andar” toma consciência de seu novo status e percebe que pode se transformar naquele que, um dia, “irá muito longe”, ou “correrá velozmente”, ou “andará ereto”, a partir da certeza de que o seu êxito é compartilhado, tem um significado transcendente e lhe confere um reconhecimento social.
Como conseqüência, o indivíduo que aprende a confiar naqueles que cuidam dele, aprende a confiar em si e no mundo. Significa também o desenvolvimento do sentimento de prazer em receber e aceitar o que é dado, a certeza de ser aceitável e de se converter naquilo que os demais confiam que chegará a ser, além da esperança de um dia poder compartilhar os seus afetos e as suas realizações com o seu meio social.
Como este conflito confiança versus desconfiança é interpessoal, ele definirá a forma de relação que o indivíduo passará a desenvolver com a humanidade ao longo da vida. Na adolescência, ele poderá se atualizar nas manifestações de procura de socialização ou na busca de isolamento, no prazer ou desprazer da convivência social e na disposição de aceitar ou não o que o mundo oferece.
Observa que a capacidade do adolescente lidar bem ou mal com a perspectiva da própria temporalidade advém de suas interações com a mãe, quando bebê, no enfrentamento precoce de suas tensões de necessidade. Inicialmente, o tempo é vivenciado de um modo concreto, quando a criança percebe que, periodicamente, a mãe atende às suas necessidades. Posteriormente, em uma configuração mais realista e abstrata, reproduzem-se as vicissitudes destas primeiras relações.
Se a mãe for suficientemente adequada, a criança concluirá este primeiro estágio com um forte sentimento de confiança, que terá a sua expressão máxima na capacidade de ter “fé”. Portanto, a fé é a virtude que emerge desta primeira fase da existência. A representação institucional da fé é “a religião”. Assim, do ponto de vista de Erikson, a religiosidade humana é forjada nos primórdios da existência.
• Segundo estágio : Autonomia versus Vergonha e Dúvida
Através da modalidade “retentiva/expulsiva”, a criança do segundo estágio da vida manifesta impulsos contraditórios tais como “agarrar e soltar”, “deter ou deixar ir”, e outros que envolvem maturação muscular, verbalização e habilidades em coordenar um certo número de atividades, que terão repercussão nas expressões de sua personalidade .
A forma como o controle esfincteriano é conduzido pelo ambiente pode determinar o fortalecimento da autonomia, que a criança deseja experimentar ou, então, a privação da progressão adequada de seu desenvolvimento, permitindo a emergência de sentimentos de vergonha e/ou dúvida em relação a si própria e aos outros que cuidam dela.
“Da certeza da bondade interior, emanam a autonomia e o orgulho e, da maldade, a dúvida e a vergonha”. A consciência de autonomia é construída a partir da confiança básica. Segundo Erikson, o ambiente deve apoiar a criança em seu processo de “sustentar-se sobre os próprios pés”, de forma a não sentir-se exposta indevidamente aos olhos do mundo. Este estágio contém as vicissitudes da “fase anal”, descrita por Freud.
Erikson enfatiza que a expressão deste conflito na adolescência é manifesto na autocerteza ou na inibição, na vontade de afirmação pessoal ou na dúvida quanto a própria afirmação.
Com autonomia e confiança, o jovem será capaz de lutar pelos seus próprios direitos e pelos direitos dos outros. Com inibição e desconfiança, não conseguirá usufruir das oportunidades que a vida lhe oferece. As tensões musculares esfincterianas e as suas manifestações orgânicas poderão ser a expressão corporal de sua tensão psicológica e social.
A virtude derivada deste período é o “poder da vontade” e o “sentimento de justiça”, que têm, no princípio da “lei e da ordem”, a sua representação institucional.
• Terceiro Estágio: Iniciativa versus Culpa
Nesta etapa da vida, a oposição ativo/passivo do período anterior é substituída pela polaridade fálico/castrado. Este estágio tem seu correspondente descrito por Freud como “fase fálica.” Neste momento, a excitação sexual, onde quer que se inicie, concentra-se cada vez mais nos genitais.
Segundo a visão de Erikson, a criança deste período apresenta uma capacidade “intrusiva” de se impor ao mundo, que se manifesta de forma cada vez mais vigorosa e extensiva. Portanto, as atividades infantis se concretizam, amplamente, através da intrusão no espaço, pela locomoção; da intrusão no desconhecido, pela curiosidade insaciável; da intrusão no ouvido de outras pessoas, através da voz agressiva; da intrusão no corpo do outro, pelo ataque físico e também através da possibilidade do phallus introduzir-se no corpo feminino.
A oposição feminino/masculino e, portanto, a identidade de gênero tem seu acabamento na adolescência na proporção da reedição e elaboração deste conflito iniciativa versus culpa, que tem a sua origem na fase edipiana, descrita por Freud.
As experimentações dos adolescentes e as suas explorações motoras e sexuais relembram as “explorações titubeantes” das crianças na busca de suas possibilidades de auto-conhecimento.
A culpa, que compõe o conflito nuclear deste período, advém da rivalidade e do ciúme entre irmãos por uma posição favorável junto dos pais e pelo desejo incestuoso, ameaçado pela angústia gerada pelo temor de castração. O gosto pela competição, a persistência nos objetivos, o prazer da conquista, do ataque, a determinação, a iniciativa e a perseverança são todas expressões de conduta herdadas deste estágio da vida e se manifestam com vigor na adolescência.
As primeiras representações das vicissitudes da identidade sexual são impregnadas das vivências desta fase e são analisados dentro da situação de conflito triangular, resumida na expressão “Complexo de Édipo”. Elas não dependem simplesmente da conduta dos pais, mas de como foram experimentadas pela criança. É importante ter-se em mente que o esquema teórico do complexo de Édipo puro é uma abstração. Na vida, as posições positivo e negativo, ativo e passivo se misturam. O que acontece naturalmente é que uma das tendências é dominante ou sufocada, evidente ou latente, consciente ou reprimida. A partir da repressão maciça dos desejos edípicos, torna-se possível a evolução do desenvolvimento da criança, que, abdicando dos conteúdos do “seio materno”, passa a vislumbrar a possibilidade do prazer de experimentar o “leite da sabedoria” e, se esquecendo dos “orifícios concretos do corpo materno”, encontra nos “tubos de ensaio” da ciência a sua maior realização. A criança que finaliza este terceiro período da vida descortina os horizontes éticos e estéticos da cultura .
A virtude que emana deste período é a “determinação”, que não encontra na sociedade uma instituição específica, mas, no dizer de Erikson, permite traçar um ethos de ação, faz emergir um sentimento moral que estabelece as fronteiras do permissível e do possível, inserindo a criança na realidade concreta imposta pela civilização.
• Quarto estágio: Produtividade versus Inferioridade
Erikson considera que, neste estágio, cessa a dependência total da criança em relação aos pais e a identificação toma o lugar do amor objetal. O trabalho escolar e a atividade em grupo passam a constituir o centro da vida da criança, transportando-a para além dos limites da família. Ele acredita, como Anna Freud que, com a influência educacional, a criança adquire a fortaleza e a competência necessárias para dominar tanto a realidade, quanto o instinto.
Corroborando a contribuição de outros psicanalistas, Erikson confirma que a criança será derrotada pela puberdade, se não passar pelo período de latência. Como Freud, Erikson enfatiza a importância do desenvolvimento bifásico da sexualidade, que prolonga a infância e representa condição singularmente humana, responsável pelas realizações do homem.
“É neste estágio que o indivíduo descobre que a cor de sua pele e os antecedentes de sua família decidem também o seu valor social”. A partir daí, o sentimento de produtividade da criança passa a competir com o seu sentimento de inferioridade.
O conflito aprendizagem versus paralisia operacional, vivenciado pelo adolescente, reflete a sua ambivalência na aceitação do que lhe é oferecido para se realizar como ser integrado à sociedade e, consequentemente, o sentimento de compartilhar ou não com a identidade tecnológica de seu tempo.
A virtude deste momento da vida é a “competência” e a instituição emergente é a “tecnologia”. No dizer de Erikson, o indivíduo que nega a tecnologia está negando o período de latência.
• Quinto estágio: Identidade versus Confusão de Identidade
Tendo alcançado a Adolescência, a pessoa passa a se contemplar dentro de uma perspectiva histórica. Adquire a capacidade de avaliar as condições do passado que determinaram o presente e, a partir da síntese de suas experiências, vai concebendo o futuro. A Identidade é o tema central deste momento em que o jovem toma consciência de todos os requisitos que são exigidos dele para que atinja a maturidade.
Para Erikson, a “fidelidade” é a virtude e a “sociedade” é a instituição para aqueles que alcançaram a consciência da singularidade individual. A consolidação deste processo gera a solidariedade com os ideais do grupo social e incentiva a busca das próprias raízes, representadas pelas gerações mais velhas, as tradições, os costumes e os valores do passado.
Na adolescência, ocorre o reconhecimento mútuo entre o indivíduo e a sociedade. A sociedade confirma o jovem como portador de novas energias e o jovem reconhece a sociedade como um processo vivo que inspira lealdade, honra e confiança.
• Sexto estágio: Intimidade versus Isolamento
O pré-requisito para se alcançar “a intimidade” é a consciência de Identidade, adquirida na adolescência. O reconhecimento do outro só se dá a partir do próprio reconhecimento. O jovem adulto só será capaz de viver genuinamente o amor, após a transposição adequada dos estágios anteriores. A intimidade ou o isolamento advém da incapacidade pessoal de desenvolver um relacionamento íntimo com pessoas do sexo oposto, acenando como possibilidade de fixação a etapas anteriores da vida. O “amor” é a virtude deste período.
• Sétimo estágio: Geração versus Estagnação
Neste estágio, “a geração” significa a capacidade de orientar e guiar pessoas, de criar uma família e assegurar o desenvolvimento adequado de seus membros. A estagnação é a contrapartida negativa da geração. A capacidade de liderança versus confusão de autoridade é o conflito que, preexistindo na adolescência, antecipa o sucesso ou o fracasso deste etapa do desenvolvimento. A virtude deste momento evolutivo é o “cuidado” e as instituições são todas as que entrelaçam as responsabilidades da família, do trabalho e da sociedade no processo de continuidade da vida.
• Oitavo estágio: Integridade versus Desesperança.
O sentimento de integridade preenche os dias daqueles que já passaram por muitas crises na vida e as enfrentaram com sucesso. O desespero advém do sentimento de que o tempo é curto para se tentar recomeçar e dar novo sentido à existência.
Para Erikson, a “sabedoria” é a virtude que emerge desta última idade, porque “somente quem zelou pelas coisas e pessoas e se adaptou aos triunfos e desapontamentos do ser é verdadeiramente gerador de outras vidas e criador de idéias. O indivíduo íntegro deste último estágio é capaz de viver um amor liberto do desejo de transformar as pessoas e aceita que cada é responsável pelo próprio destino”.

1.4.4- Jean Piaget (1896 - 1980 )
Piaget privilegiou os processos do pensamento e contribuiu para a elucidação dos aspectos cognitivos da criança e do adolescente .
Afirma que o desenvolvimento é uma busca constante de equilíbrio, uma passagem contínua de um estado de equilíbrio inferior para outro de equilíbrio superior. Assim, o corpo está em evolução até a conclusão do crescimento e a maturidade dos órgãos. A inteligência também evolui da instabilidade e incoerência das idéias infantis até a sistematização do raciocínio adulto, o mesmo ocorrendo do ponto de vista da vida afetiva e social do indivíduo.
No entanto, a forma final do equilíbrio orgânico é mais estática do que o desenvolvimento da mente, porque as funções da inteligência e da afetividade apresentam um equilíbrio dinâmico, que permite um progresso cada vez maior.
O mecanismo deste equilíbrio consiste no ato de “assimilar” o mundo exterior às estruturas já construídas do sujeito e “acomodar” estas estruturas aos objetos externos. Piaget dá o nome de “adaptação” ao processo final resultante destas assimilações e acomodações. Assim, assimilando os objetos, o pensamento e a ação são obrigados a se acomodarem a estes, reajustando-se a cada ocasião das mudanças exteriores. Desta forma, o desenvolvimento mental aparecerá em sua organização progressiva como uma adaptação sempre mais precisa à realidade.
Piaget distingue quatro estágios ou períodos do desenvolvimento, que se iniciam com os comportamentos elementares do lactente e seguem até a adolescência. Cada estágio é caracterizado pela aparição de estruturas originais, cuja construção autoriza diferenciá-los dos outros estágios.
• Primeiro período: Inteligência Sensório-motora ( 0 a 24 meses)
Durante este período, tudo que é sentido e percebido é assimilado à atividade própria da criança. O próprio corpo não está dissociado do mundo exterior e Piaget fala de uma fase de egocentrismo integral.
Neste espaço de tempo, a criança evolui da não permanência para a permanência do objeto, que corresponderia a não buscar ou buscar ativamente as coisas que escapam de seu campo visual. A capacidade de representação mental marca a sua entrada no próximo período.
• Segundo período: Pré-Operatório (de 2 a 7 anos)
Observa-se agora os resultados concretos da evolução do pensamento, da linguagem e da conduta. A criança se expande com a aquisição da função simbólica.
Através das atividades lúdica, ela reproduz as situações vividas, que a impressionam, não podendo refletir sobre elas, porque ainda não é capaz de separar o próprio pensamento da ação. O jogo torna-se para a criança um meio de adaptação, tanto intelectual quanto afetivo, transformando a realidade, às vezes, penosa, em algo suportável ou agradável.
Piaget fala de um egocentrismo intelectual durante este período, em que a criança ainda não consegue discriminar as suas percepções.
A sua conduta é pautada pela subjetividade de seu pensamento e pela sua impossibilidade de se colocar no lugar do outro.
• Terceiro período: Operações Concretas (7 a 11-12 anos)
Este período marca um grande progresso quanto à socialização e à objetividade do pensamento. A criança já é capaz de fazer descentralização, tanto no plano cognitivo, quanto afetivo e moral. Ela torna-se capaz de coordenar diversas idéias e tirar as suas conclusões. As operações do pensamento são ainda concretas, porque elas alcançam somente a realidade susceptível de ser manipulada.
No final deste período, as crianças, quando em grupo, já são capazes de uma verdadeira cooperação e a heteronomia vai gradativamente cedendo lugar à autonomia.
• Quarto período: Operações Formais (Adolescência)
Nesta fase da vida, os processos cognitivos, a afetividade e as novas relações sociais desenvolvidas se revestem de inexcedível importância. Piaget não circunscreve cronologicamente este período como faz com os outros. “Após os 11 ou 12 anos, o pensamento formal torna-se possível … e também a construção dos sistemas que caracterizam a adolescência.
Sob o ponto de vista intelectual, com o surgimento do pensamento formal, torna-se possível a coordenação de operações, que não existiam anteriormente. O adolescente, movido por interesse crescente, começa a procurar não mais apenas soluções imediatas, mas constrói sistemas, tentando alcançar uma verdade mais geral.
Segundo Piaget, as operações formais (pensamento hipotético-dedutivo), que emergem, fornecem um novo poder ao adolescente, permitindo ao jovem desenvolver as reflexões e formular, a seu modo, as teorias. Esta é uma das manifestações que distingue a adolescência da infância, ou seja, a reflexão espontânea e livre. Observa-se ainda um egocentrismo intelectual, manifesto pela crença onipotente do pensamento, como se o mundo devesse submeter-se aos seus sistemas e não estes, à realidade.
Paralelamente, a vida afetiva do adolescente afirma-se através da conquista da própria personalidade e de sua inserção progressiva no mundo adulto.
Para Piaget, a personalidade resulta da autosubmissão, implicando em autonomia que se opõe à anomia ou à heteronomia. A pessoa se torna solidária com as relações sociais que ela produz e mantém. Significa também a descentralização da conduta e a integração ativa do adolescente a um programa social de cooperação.
Segundo Piaget, o adolescente pretende inserir-se na sociedade através de projetos de vida, muitas vezes teóricos, que englobam planos de reforma política e social, mas estes programas estão intimamente ligados às suas relações interpessoais, assumindo mais a forma de uma hierarquia de valores afetivos que um sistema teórico.
Afirma que as sociedades dos adolescentes são sociedades de discussão, pequenos cenáculos, onde o mundo é reconstruído em comum, através do discurso livre e sem fim, que combate o mundo real. É o tempo dos movimentos da juventude e das grandes manifestações de entusiasmo coletivo. O equilíbrio é atingido, quando “a reflexão compreende que a sua função não é contradizer, mas interpretar a experiência e a verdadeira adaptação à sociedade vai-se efetuando na proporção em que o adolescente evolui de transformador para realizador”.
1.4.5. Adolescência na perspectiva psicanalítica atual
À luz da psicanálise, Arminda Aberastury e Maurício Knobel destacam a adolescência como uma fase dentro de todo o processo evolutivo, que sucede, num continuum, à infância. Reinterpretam e sistematizam as construções teóricas introduzidas ao longo deste século e focalizam:
• a progressiva transformação corporal introduzida pela puberdade e as suas repercussões na vida do jovem.
• a evolução do desenvolvimento cognitivo e a convivência com infinitas possibilidades intelectuais.
• a gradativa construção da identidade e o acesso do adolescente aos limites de suas próprias fronteiras.
• as modificações crescentes da socialização e o rompimento das demarcações familiares com a busca da amplitude da humanidade.

1.4.5.1- Arminda Aberastury e o Processo de Luto
Segundo Arminda Aberastury, as transformações psicológicas desta etapa da vida têm correlação com as mudanças corporais da puberdade e levam o adolescente a estabelecer novas relações com seus pais e com o mundo. Esta revolução pode ser comparada a um processo de luto. O conceito de luto veicula idéias de perdas reais e simbólicas, que são elaboradas num tempo que tem dimensões muito pessoais. Em vista disto, fases observadas e descritas de negação, ambivalência, agressividade, interiorização são descritas como a manifestação de todo um conjunto de defesas necessárias para a resolução satisfatória deste período da existência.
Assim, inicialmente, o adolescente nega as suas transformações. Em seguida, sofre a ambivalência entre a necessidade de progredir e o desejo de se manter no estágio infantil. Avalia os ganhos e sofre profundamente as perdas. Vive a digressão, questiona a família e o mundo. Rompe vínculos e parte na busca de si junto com outros que vivenciam o mesmo processo ou, se isola, se interioriza, na tentativa de compreender este momento evolutivo. No final da adolescência, ocorre a sua aceitação como pessoa, que deve continuar a sua trajetória na busca de sua própria maturidade.
Descreve que os lutos que o adolescente precisa elaborar são: o luto pelo corpo infantil, o luto pela identidade infantil e o luto pela bissexualidade.
• Luto pelo corpo infantil
Com o advento da puberdade e todo o conjunto de modificações somáticas que a acompanham, o indivíduo percebe que, progressiva e inexoravelmente, vai-se transformando em adulto. Todo este processo, no entanto, é vivido de forma incoercível, como uma invasão agressiva, deixando o adolescente perplexo e impotente. A auto-imagem construída ao longo dos anos tem que ser, agora, reformulada a partir da construção de um novo esquema corporal e de novas modalidades relacionais consigo próprio e com o mundo. O sofrimento pela perda do corpo infantil fará o adolescente atuar de forma intensa a nível mental ou através da expressão motora pela ação. As suas idéias revolucionarias de reformas políticas ou sociais, os seus movimentos em defesa do meio ambiente e da ecologia nada mais são do que expressões de agressividade e protesto frente à frustração de se ver mudando sem ter sido consultado e de assistir impotente às próprias transformações.
A atuação motora do adolescente, associada à auto-estima debilitada e à inabilidade em conviver com o próprio corpo explicam, em parte, a grande incidência de acidentes a que está sujeito.
• Luto pela identidade infantil
Durante a infância, os pais podem tudo pela criança. Na adolescência, o adolescente tem que aprender a poder tudo por ele mesmo. A dependência é a relação lógica e natural da infância. O adolescente aspira pela autonomia, mas a dependência dos pais ainda é muito necessária, porque ele se sente imaturo. Na tentativa de elaborar o luto pela dependência infantil, o adolescente manipula a afetividade. Brigando, questionando, talvez seja mais fácil a separação, mas não menos dolorosa. Enfrentar os pais é enfrentar o mundo, conquistar um espaço seu, antes ocupado por eles. Trata-se de uma verdadeira revolução no meio familiar e social, criando um problema de gerações nem sempre bem resolvido.
Dependência e agressão estão intimamente ligados. Quanto mais uma pessoa permanece dependente de outra, mais agressão ela terá latente dentro de si. Depender de uma pessoa significa estar em poder dela, sentindo este poder como uma influência restritiva que deve ser superada.
• Luto pelos pais da infância
O adolescente tem que elaborar o luto pelos pais da infância. Com a conquista do pensamento formal, o adolescente atinge a etapa final de seu desenvolvimento cognitivo. Isto significa que ele constrói a realidade de forma mais precisa e preenche com hipóteses os espaços e falhas das construções infantis. O pensamento mágico da infância também se torna passado. As figuras parentais agora são vistas a partir de uma realidade mais concreta e podem, muitas vezes, constituir-se em pessoas muito simples. “Os pais não poderão mais funcionar como ídolos e líderes e torna-se difícil para o adolescente abandonar a imagem idealizada dos pais que ele próprio criou” .
Acontece que também os pais participam do sofrimento dos filhos e têm que elaborar, neste momento de crise, o luto pela perda do filho criança e da relação de dependência infantil. Neste advento de rebelião e iconoclastia, eles são julgados pelos próprios filhos e isto se torna muito doloroso se o adulto não tem consciência de seus problemas junto ao adolescente. Para os pais, buscar uma relação madura com os seus filhos adolescentes significa o confronto com a sua própria realidade, o enfrentamento do porvir e da morte e o repensar de todas as suas possibilidades perdidas, que se abrem fascinantes para o jovem em pleno desabrochar de sua sexualidade.
• Luto pela bissexualidade
O adolescente tem que elaborar o luto pela bissexualidade, que consiste na definição de um papel sexual e no exercício da sexualidade com responsabilidade. O menino tem que renunciar de forma definitiva a seu desejo de ter um bebê e a menina tem que renunciar à onipotência materna. A evolução natural deste processo, que vai do auto-erotismo até a heterossexualidade, faz o adolescente reviver todas as etapas de sua sexualidade infantil. Inicialmente, o adolescente vive o amor sincrético, porque o seu objeto de amor é ele mesmo. Será preciso um longo caminho a percorrer para que a necessidade de ser amado se funda à necessidade de amar, que a necessidade de receber se funda à necessidade de dar, de forma que ele possa viver uma sexualidade amor que transborde na direção do outro como pessoa humana, com todas as conseqüências que advêm.

1.4.5.2- Maurício Knobel e a Síndrome Normal da Adolescência
Maurício Knobel observa que o adolescente vivencia “desequilíbrios e instabilidades extremas” com expressões psicopatológicas de conduta, mas que podem ser analisadas como aceitáveis para o seu momento evolutivo, pois constituem vivências necessárias para se atingir a maturidade. Reúne sob a denominação de “síndrome normal da adolescência” ou “normal anormalidade da adolescência” ao conjunto de sinais e sintomas que caracterizam esta fase da vida e que são:
• Busca de si e da identidade
A identidade, “consciência que o indivíduo tem de si como um ser no mundo”, é construída ao longo da vida e tem especial importância na adolescência. As transformações progressivas do corpo e do esquema corporal levam o adolescente a adotar sucessivos modos de conduta em diferentes situações, que constituem variações circunstanciais, transitórias e ocasionais da identidade adolescente.
O conceito de identidade engloba vínculos de integração espacial, temporal e social, introduzidos por Grimberg. O vínculo de integração espacial está relacionado com a representação que o indivíduo tem de seu corpo com características que o tornam único. O vínculo de integração temporal corresponderia à capacidade do indivíduo de se recordar no passado e de se imaginar no futuro, sentindo-se o mesmo ao longo de sua vida. O vínculo de integração social se inscreve nas relações com figuras significativas em sua trajetória existencial.
Na busca de sua identidade, o adolescente recorre a situações que se apresentam as mais favoráveis no momento. Uma delas, é “a uniformidade”, o processo de identificação em massa, que explica o “fenômeno grupal”. Maurício knobel enfatiza que, na proporção em que o adolescente vai aceitando simultaneamente os seus aspectos de criança e adulto, começa a surgir a nova identidade.
• Tendência grupal
M. Knobel assinala que a busca de uniformidade é um comportamento defensivo que proporciona segurança e estima pessoal. O fenômeno grupal adquire uma importância extraordinária na adolescência, porque o indivíduo transfere para os pares parte da dependência que mantinha com a família. Assim, a dependência do adolescente aos valores do grupo é escravizante. Precisa de aplausos, julgando-se sempre conforme a sua aceitação exterior. Ele não pode perceber ainda que a busca da aprovação dos outros é a busca de sua própria aprovação.
No início da adolescência, a turma é formada por companheiros do mesmo sexo, mas, na medida em que amadurecem, assumindo sua condição sexual, sentem-se mais livres para aproximar dos adolescentes do sexo oposto.
A turma constitui uma transição necessária no mundo externo para se alcançar a individuação adulta.
• Necessidade de fantasiar e intelectualizar
A necessidade de fantasiar e intelectualizar se intensificam e dominam o pensamento do adolescente, como mecanismos de defesa frente as situações de perda . A vivência dos lutos outorgam um sentimento de depressão e fracasso frente a realidade externa. É na adolescência, que nascem os escritores e poetas, trazendo uma bagagem revolucionária própria de cultura para o mundo.
• Crises religiosas
Segundo Maurício Knobel, o adolescente pode se manifestar como um “ateu intransigente” ou um “místico fervoroso”, vivendo uma variedade de posicionamentos entre estes dois extremos. Isto reflete sua angústia interna, no confronto com a sua possibilidade de morte e de perda de seus pais. As figuras idealizadas oferecidas pela religião lhe permite a garantia de continuidade de sua própria vida e daqueles que lhe são queridos.
• Deslocamento temporal
O adolescente vivencia uma crise de temporalidade. A criança vive as limitações do espaço e do tempo, dentro dos limites de seu pensamento concreto. O adulto tem a noção da infinitude espacial e da temporalidade da existência. Na adolescência, estas noções se misturam, se confundem e o adolescente passa por um período de sincretismo. Ele apreende o processo de discriminação temporal, passando pela tentativa de manejar o tempo de forma concreta e evoluindo para a própria consciência histórica individual e coletiva.
• Evolução sexual do auto-erotismo até a heterossexualidade
Reeditando a infância, através da masturbação, o adolescente revive a fase de manipulação dos órgãos genitais pelo lactente e, portanto, esta atividade tem características exploratórias, de autoconhecimento. A masturbação pode servir como modalidade de descarga de tensão, negação onipotente da existência de outro sexo e, também, através dela, o adolescente pode elaborar a necessidade de um companheiro sexual. A culpa e a ansiedade podem acompanhar este processo. Outras saídas tensionais para esta fase são identificadas através das atividades de roer unhas, sugar lábios, gagueiras, resmungos, levar mãos aos lábios e torcer cabelos. Outras vezes, os adolescentes apresentam voracidade oral, atividades sádicas anais, expressas na linguagem suja e na indiferença pela limpeza. Inicialmente, os meninos evitam a presença das meninas e a solução defensiva deste momento é a tendência grupal, chamada fase homossexual da adolescência.
Gradativamente, na proporção em que se sentem mais seguros de sua identidade sexual, os adolescentes vão se aproximando de seus pares do sexo oposto. Às vezes, observa-se condutas femininas nos rapazes e masculinas nas moças, que correspondem a aspectos da elaboração edípica. É importante assinalar que a cordialidade nas relações com os pais facilita as relações com as pessoas do sexo oposto.
A sensação de estar apaixonado é um dos componentes mais importantes da vida do adolescente e, neste momento, tem características de vínculo intenso e frágil, que tende a evoluir para o amor maduro, na medida da cristalização da masculinidade e feminilidade.
• Atitude social reivindicatória
Grande parte da oposição que os adolescentes vivem com relação à família é transferida para o meio social, projetando no mundo externo as suas raivas, as suas rejeições e as suas condutas destrutivas. O adolescente pode sentir que ele não está mudando e que são os pais e a sociedade que se negam a ter com ele uma atitude provedora e protetora. Esta é a base da atitude social reivindicatória.
• Contradições sucessivas em todas as manifestações de conduta
Estas condutas contraditórias são expressões da identidade adolescente, transitória ocasional e circunstancial.
• Separação progressiva dos pais
Esta é uma das tarefas básicas dos adolescente, que pode ser facilitada por figuras parentais suficientemente adequadas.
• Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo
O processo de luto da adolescência é permeado pela depressão e ansiedade, substrato natural das alterações de humor dos adolescente.
Maurício Knobel deixa claro que “somente quando o mundo adulto compreende e facilita adequadamente a tarefa evolutiva do adolescente, ele poderá desempenhar-se satisfatoriamente, elaborando uma personalidade mais sadia e feliz” ..

1.5-SÍNTESE

A construção do arcabouço teórico do desenvolvimento foi realizado através de estratificações sucessivas do conhecimento, que foram se tornando cada vez mais sólidas e que revelam aspectos fundamentais:
• A adolescência é um momento de expansão e crescimento, intermediário entre a infância e a fase adulta, caracterizado por transformações somáticas, psicológicas e sociológicas, que conferem ao adolescente características próprias e idiossincrásicas.
• Na puberdade, o programa genético humano é ativado pelas mudanças hormonais e o adolescente se percebe engajado em comportamentos tanto de predação, quanto de cooperação, e a natureza humana se manifesta em sua mais pura expressão agressiva e sexual.
• A estrutura psíquica do adolescente revela um id forte, que acompanha os processos fisiológicos da puberdade, e um Ego fraco, que tem que desenvolver mecanismos de defesa para não sucumbir ao incremento das forças instintivas.
• Trata-se de um tempo de crise vital, de crise normativa, em que o indivíduo se vê, pela primeira vez, sob uma perspectiva histórica. Reedita as etapas anteriores de seu desenvolvimento, realiza a síntese de suas experiências vivenciadas e se propõe projetos para o futuro.
• A emergência do pensamento formal permite ao adolescente a vivência e a expansão de sua capacidade cognitiva. O pensamento mágico da infância vai se tornando passado e o adolescente vai aprendendo a conviver com a realidade, que se configura, muitas vezes, dolorosa para ele.
• A conquista da possibilidade de socialização cada vez mais ampla leva o adolescente, sedento de liberdade, a deixar o âmbito da família e ganhar a amplitude dos limites da humanidade.
• Ele vive e elabora lutos, dá o salto para definição progressiva da identidade, percebendo que as suas perdas tomam dimensões temporais bem concretas. A partir de um substrato depressivo, em um tempo bem individual, o adolescente reestrutura a própria vida.
• Nesta fase da vida, o adolescente, reescreve a própria história, a partir de uma nova interpretação de suas experiências vividas na infância, podendo definir o fracasso ou o sucesso de sua trajetória pela vida.
• Em meio à expansão radical de todas as áreas de conduta, nas vicissitudes de suas transformações radicais, ergue-se o adolescente, em busca de si, desejando experimentar todas as suas possibilidades. Nesta perspectiva, ele pode correr riscos e tornar-se vítima de sua própria intrepidez.

1.6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Marília de Freitas Maakaroun*- Pediatria, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Hebiatra, Professora Doutora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.