MarÃlia de Freitas Maakaroun (organizadora)*
“É quando vamos além do instinto
 que parecemos mais idiossincraticamente humanosâ€.
Ridley, M. “O que nos faz humanosâ€,2004.(15)
Introdução:
Desde que os seres humanos adquiriram a “consciência reflexivaâ€, deixaram o reino exclusivo da natureza, e se inseriram, definitivamente, no reino da cultura. Nesse contexto, a “sexualidade e suas vicissitudes“ também perderam a naturalidade do determinismo biológico e se tornaram fenômenos sociais, culturais e históricos.Â
 O andar bÃpede, uma das caracterÃsticas peculiares da nossa espécie surgiu há aproximadamente 4,5 milhões de anos ou mais, “por casualidade”, em processo adaptativo à s condições de seca e ambiente mais aberto, que prevaleceu na Ãfrica oriental. A postura bÃpede foi selecionada, favoravelmente, no processo evolutivo, porque os hominÃdeos puderam carregar os alimentos com as mãos e dividi-los com os parentes mais próximos. Ela favoreceu também a maior capacidade de relacionamento sexual dos hominÃdeos, que puderam ficar mais perto de si, por tempo maior (13).Â
Na distinção entre natureza e cultura, ficou ordenado que a natureza seria o reino da repetição, que opera mecanicamente, de acordo com as leis da necessidade causal e do determinismo cego. A cultura passou a ser vinculada à história e à humanidade. Tornou-se o reino da liberdade, da escolha e da transformação racional dos valores, da distinção entre o bem e o mal, do verdadeiro e do falso, do justo e do injusto, do sagrado e do profano.
Todavia, “o fato da cultura†não engendrou sujeitos, definitivamente desgarrados, libertos das necessidades e das experiências corpóreas, uma vez que a humanização da natureza passou a ser mais um processo, através do qual, o homem impôs a lei humana à natureza.
Assim, até hoje, os humanos, permanecem enraizados em seu passado evolutivo. As motivações humanas ainda estão mergulhadas nas camadas do instinto, e seus preconceitos e desejos ainda se originam da vontade de sobreviver e reproduzir.Â
No entanto, existe uma tensão entre os instintos da Idade da Pedra e as dificuldades impostas pela civilização pós-industrial.
Os humanos são forçados a construir o seu caminho com a bagagem genética de cinco milhões de anos.
Os primórdios da cultura humana:
Uma das caracterÃsticas importante do gênero humano à época do surgimento da “consciência reflexiva†foi o princÃpio ou arquétipo feminino, que se constituiu no elemento espiritual ou mÃtico dominante da vida cultural.
Enquanto o arquétipo masculino tendia para a ação, a competitividade e a agressividade, o arquétipo feminino tendia ao relacionamento, à conexão com a natureza, à receptividade e à dedicação.
Segundo Campbell, em épocas pretéritas, a figura central de toda mitologia e culto era a dadivosa deusa Terra, mãe e nutriz da vida, anfitriã dos mortos que iriam renascer .
Nesse mundo primitivo, não havia espaço para a apreciação de relações causais ou acontecimentos separados no tempo. Mal se identificava a natureza como um aspecto separado da vida, de sorte que não havia distinção nÃtida entre o mundo dos sonhos, os estados alterados de consciência e a realidade comum. Também não havia divisão entre a esfera dos vivos e a dos mortos. Os humanos não compreendiam como a natureza funcionava e o mundo lhes parecia governado por forças superiores invisÃveis.
Os mitos:
Os valores e preceitos sexuais, até hoje dominantes, são o reflexo das mitologias primitivas que formaram o núcleo e a essência do que chamamos realidade humana.
A base de muitas suposições sexuais surge, muitas vezes, nos mitos da criação, envolvendo a terra e o céu. (11)
“Assim, no princÃpio foi Gaia, que é a terra… A vida brotou-lhe da boca… De todos os seus filhos, Urano, o céu estrelado, foi o primeiro a sair de seu corpo…sem pai, nem consorte. Depois a terra deu à luz à s colinas, onde dançam as ninfas, e, em seguida ao mar, onde as ondas vagueiam… Então a terra deitou com o seu divino filho, o céu, e desta união proveio a primeira dinastia dos deuses…â€
A cultura ocidental se respalda na velha suposição mitológica de que a terra é feminina (Mãe-terra), enquanto que o céu é masculino (pai celestial) e esse mandato se reflete na concepção das relações sexuais entre humanos, ou seja, o homem por cima e a mulher por baixo.
“Crono, esposo da irmã Reia, o mais jovem e traiçoeiro dos filhos da Terra, castra o pai e lhe usurpa o lugar no céu…e funda a dinastia dos deuses do Olimpo…
 Zeus, o mais ambicioso de todos os filhos de Crono e Reia, matou o pai e reinou no Olimpo acabando com o universo matricêntrico….â€
“A raça dos homens foi criada por Prometeu, filho de Gaia, que sabia que a semente dos céus jazia dormindo na terra…Prometeu elevou-se aos céus e trouxe a tocha de fogo, que deu inÃcio à civilização….provocou a fúria de Zeus, que fabrica um ser humano, puro simulacro, Pandora, a que ninguém poderia se opor, e envia, como vingança, aos homens surgindo a mortÃfera raça das mulheres, que vivem no meio dos mortais, para grande transtorno deles….â€
Outra modalidade mitológica de encarar a origem da sexualidade é registrada nos preceitos órficos , que relatam que, “no princÃpio, havia a noite, até que um ovo de prata contendo Eros se formou e, do nada, cresceu até se abrir e se separar em dois elementos terra (Gaia) e Céu (Urano), que copularam e deram origem a Crono e a outros titãs gigantescos.
Crono casa-se com Reia e dá a luz a muitos deuses, dentre eles ZEUS. Zeus engoliu o pai e passou a reinar no cosmos. Zeus conferiu a seu filho DionÃsio o domÃnio do mundo recém-criado. Mas antes de assumir o domÃnio, DionÃsio foi morto pelos titãs enciumados. Ao descobrir o que havia acontecido, Zeus destrói os titãs com os raios e trovões.â€
Com estas cinzas, Zeus modelou a humanidade. Esse ato dá à criação o sentido do profano e sagrado.
Este mito fez com que a filosofia Órfica concedesse à humanidade uma dupla natureza em conflito permanente: “a bondade divina e a maldade herdada dos titãsâ€. O significado dessa ideologia transformou-se em prescrição dogmática de que “para se alcançar a divindade, tem-se que alimentar do que há de divino em si e expurgar o malâ€.
Isto significa que os humanos carregam a herança de que a sua corporalidade e sexualidade constituem aspectos implacáveis de base mÃtica. Os valores humanos e seus juÃzos éticos são derivados dessa e de outras mitologias . (11)
Segundo Platão 427a.C.(14), na pessoa de Aristófanes, a natureza humana passou por muitas mudanças através dos tempos. Os sexos da espécie humana eram três: macho, fêmea e o andrógino (metade homem e metade mulher). A figura de cada humano era inteira, sendo as costas redondas e as costelas circulares. Tinham quatro mãos e quatro pernas sobre um pescoço redondo; dois rostos, colocados um ao contrário do outro; duas “pudendas†e tudo mais dobrado como se pode imaginar. Não só caminhava ereto, como girava sobre as pernas, rodando, em cÃrculos. O sexo masculino era, primitivamente, um rebento do sol; o feminino, da terra; e o comum de dois, o andrógino, da lua. Eram dotados de força e inflados de orgulho. Atreveram contra os deuses, realizando escalada ao céu, para desafiá-los. Zeus, não podendo tolerar tal insolência, decidiu um modo de enfraquecer a humanidade. Então, cortou, literalmente, todos os humanos em duas partes, com a maior precisão. De cada um que fendia, mandava Apolo virar a cara e a metade do pescoço para o lado do corte, para que o sujeito, contemplando-se, pudesse compreender a sua dimensão. Quanto ao resto, Apolo pegava a pele e amarrava tudo como um saco, deixando uma só abertura, o umbigo.
Ora, fendido em dois, cada metade sentia saudade da outra e se juntavam. Envolvendo-se em um abraço, ficavam enlaçados no desejo de se unificar e iam morrendo de inanição por não conseguirem fazer nada, um sem o outro. Assim, morrendo, iam se acabando.
Zeus, condoÃdo com a situação dos mortais, passou-lhes as “pudendas†para frente do corpo, a fim de que pudessem reproduzir e continuar sobrevivendo. Quando se juntava um macho com uma fêmea, ocorria a geração e a espécie se conservava, mas, caso um mancho encontrasse com outro ou uma fêmea com outra, resultaria, ao menos, a satisfação de se entregarem ao trabalho e cuidarem dos interesses da vida. Por fim, todos os que são segmentos de machos procuram o macho; as mulheres, segmentos de mulheres procuram mulheres; e os andróginos procuram os sexos diferentes. Quando, de fato, cada metade encontra a sua outra metade, surgem sensações extraordinárias de afeição. Desaparece o ânimo de separar-se um do outro pelo mais breve tempo. Atravessam a vida juntos, desejando, somente, o gozo de desfrutar da companhia um do outro.
Quando a ideologia ocidental insiste que a atividade sexual é puramente instintiva, inata e natural, está relutando em reconhecer que a sexualidade tenha uma história. No entanto, os historiadores deixam claro que a sexualidade tem uma história.
 Por exemplo, a visão ocidental, judaico- cristã, recebeu a influência do mito da ‘má Eva’ e a posterior influência do mito pela história da ‘Virgem Maria’. Agora, “Maria Madalena†toma a vanguarda do movimento feminista, ampliando as fronteiras da liberdade feminina no exercÃcio da cidadania e igualdade de direitos.
Essa visão patriarcal proclamou a mulher, representada por Eva, como uma criatura indisciplinada e fortemente sexuada. Por volta do século XVII, uma mudança ideológica radical convenceu as mulheres de que eram são menos sensuais do que os homens.
As mulheres passaram, então, a sofrer de anestesia sexual, e se transformam nas ‘Belas adormecidas’. Os homens se tornam os atletas sexuais, criaturas apaixonadas e sensuais que iniciam a atividade sexual, a despeito da resistência natural da mulher. A agressão sexual do homem passa a ser natural e simboliza a masculinidade. Sem uma descarga sexual conveniente, acreditava-se que a saúde do homem seria comprometida.
Na era vitoriana, a opinião acerca da desenfreada sexualidade masculina passou a ser considerada nociva. Considerava-se que a perda do esperma fosse debilitante. Os homens eram aconselhados a evitar a cópula antes de atividades importantes, como os eventos esportivos e manobras militares. A masturbação passou a ser condenada, acreditando-se que a perda do esperma pudesse, dentre outras mazelas, levar à loucura.
O corpo começa a ser encarado como uma metáfora da sociedade, como uma representação do grupo a que pertencem. As sociedades se tornam vulneráveis à interseção com outros grupos e ficam atentas aos orifÃcios do corpo humano, por onde passam as substâncias para dentro e para fora.
As sociedades, que consideraram importante manter o seu isolamento, passaram a proteger as suas fronteiras culturais contra a intrusão e a contaminação, o que pode ser simbolizado por meio de tabus em torno dos alimentos e do sexo.
No século XX, muitos estudos indicaram que o corpo da mulher serve de sÃmbolo coletivo dos marcos fronteiriços, que separam o grupo dos estranhos. O isolamento vigiado das mulheres significa a ‘privacidade do grupo’. Portanto, a castidade feminina é justificada como forma de proteção contra a intrusão de estranhos, em sociedade baseada em parentesco.
Os contos de fadas
Contrariando o mito, a sabedoria não irrompe, plenamente, como Atenas emergiu, florescente e lúcida, da cabeça de Zeus. Ela é construÃda, passo a passo, na proporção que as experiências da vida e a maturidade vão se integrando em significados humanos.
Através dos contos de fada, que despertam, tão profundamente, a curiosidade da criança, aprende-se muito sobre os problemas e as soluções que a sociedade encontra para as suas adversidades. Através de séculos, os contos de fada vêm sendo contados e conseguem até hoje transmitir significados manifestos e encobertos a todos os nÃveis de personalidade humana, atingindo tanto a mente infantil quanto a do adulto. (4)
Sob uma óptica lúdica e liberal, essas estórias deixam vir a tona os desejos, as fantasias, as manifestações da sexualidade infantil, permitindo à criança lidar com seu imaginário, elaborando suas transgressões à luz das normas sociais.
Nesses contos, a sexualidade infantil é abordada dentro do contexto do princÃpio do prazer e da realidade e a criança passa a internalizar as prescrições morais da sociedade através dos juÃzos de valor que as estórias transmitem. Assim, as crianças são punidas se são muito gulosas (fase oral), se são perdulárias ou avarentas (fase anal) ou se muito curiosas ou intrusivas (fase fálica).(6)
No caso da estória de “Chapeuzinho Vermelhoâ€, segundo ChauÃ,M., o lobo é mau e se prepara para comer a menina, que ingênua, o confunde com a vovó, mas é salva pelo caçador, que, com o fuzil, mata o animal agressor e reconduz a menina para a casa da mamãe. A estória insere duas figuras masculinas antagônicas: o sedutor animalesco e perverso que usa a boca para seduzir e comer e o salvador humano, bom que usa o fuzil para caçar e salvar. A menina se surpreende com o tamanho dos órgãos do lobo e, fascinada, cai na sua goela. A sexualidade do lobo é destrutiva, oral, infantilizada. Em outros contos, os autores exploram, também, as primeiras manifestações da sexualidade da criança e suas escolhas de objeto parcial ou total. A mãe, como fada ou bruxa, ora desempenha o papel do objeto bom, ora o papel do objeto mau. Os elementos como frutas, alimentos venenosos, bolos, jóias representam ora o seio bom, ora o seio mau.
Na maioria dos contos de fada, a cultura impõe as normas e os valores e prescreve que o sofrimento decorre de sua desobediência.(6)
A evolução humana e Erich Fromm (1979)
A passagem do “estado de natureza†para o “estado de cultura†correspondeu ao desprendimento do homem dos laços incestuosos com o solo e a natureza, representados, concretamente, pelas relações afetivas primordiais com a mãe, para o grande salto na direção da autonomia e liberdade.
O homem, libertando-se da natureza, torna-se humano. Assim, a famÃlia passa a ser a agência psÃquica da sociedade, a organização que tem por missão transmitir as exigências da sociedade ao sujeito em crescimento.
Na versão bÃblica, a liberdade e autonomia são as metas do desenvolvimento humano e o objetivo da ação humana é o processo constante de libertação das cadeias que prendem os humanos à natureza, ao passado, ao clã e aos Ãdolos.
Adão e Eva estiveram presos, no inÃcio da evolução, ao sangue e ao solo, portanto, ainda eram ‘cegos’. Os seus olhos foram abertos depois que adquiriram o conhecimento do bem e do mal. Com este conhecimento, a harmonia original com a natureza foi quebrada. Ao iniciar o processo de individuação, os humanos cortam seus laços com a natureza. Com este primeiro passo de separação, a história e a alienação, têm inÃcio.
O ser humano só se reconcilia com a natureza quando se torna plenamente humano.
Esta não é a história da queda do homem, mas do seu despertar, e, assim, do começo de sua ascensão.
Junto com a história da expulsão do paraÃso, do ventre materno, o texto bÃblico proclama em linguagem não simbólica a necessidade de se cortar os laços com o pai e a mãe, nos seguintes termos:…’por isto o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à outra mulher e serão dois em uma só carne’.
Ou seja, a união entre o homem e a mulher só se torna possÃvel depois que os laços do incesto forem cortados.
Na história de Abraão e das tribos hebraicas fixadas no Egito, uma nova dimensão, a dimensão da escravidão foi acrescentada aos laços de sangue e solo. Portanto, o mandato foi não só cortar os laços com os pais, mas também os laços sociais destrutivos, que fazem do sujeito um escravo, dependente de um senhor.
No processo do desenvolvimento da raça humana, talvez não tenha havido outro modo de ajudar os humanos a se libertar dos laços incestuosos com a natureza e o clã, exigindo deles obediência às leis de Deus.
A obediência à autoridade racional é o caminho que facilita o rompimento da fixação incestuosa com as forças arcaicas pré-individuais. Além disto, a obediência a Deus é também a negação da submissão aos homens:
‘Resolvemos há muito não ser súditos dos romanos, nem de ninguém, exceto de Deus, pois somente Deus é verdadeiro e justo senhor do homem’.
A idéia da servidão de Deus transformou-se na base da liberdade do homem em relação ao homem. A autoridade de Deus garante desta forma a independência do homem em relação à autoridade humana.
Isso confirma o fato de que os objetivos do desenvolvimento do homem, o corte do cordão umbilical, significam a liberdade, independência, autonomia e a capacidade de dever a existência a si mesmo.
Mas esta independência radical é possÃvel ao homem? Pode ele enfrentar a sua solidão sem desmaiar de terror?
Não apenas a criança, mas também o adulto é impotente e desamparado:
‘Contra a tua vontade foste gerado e contra a tua vontade,
nasceste e contra a tua vontade, vives e, contra a tua vontade, morrerás…e contra a tua vontade estás destinado a prestar contas ao rei dos reis, ao sagrado, Bendito seja ele.’
Os humanos têm consciência dos riscos de sua existência e suas defesas são insuficientes. Sucumbem à s enfermidades e morrem. Vivem da incerteza e do conhecimento fragmentado. Têm consciência de serem seres que jamais se completam. Mesmo que superem a fixação ao solo, à mãe e ao clã, apegam-se a outras forças que lhes proporcionam segurança e certeza: sua nação, os amigos, o seu grupo, o poder social, a sua famÃlia, o seu dinheiro e outras.
A obediência no plano patriarcal da tradição bÃblica é a obediência à figura do pai, que representa a razão, a consciência, a lei, os princÃpios morais e espirituais. A mais alta autoridade no sistema bÃblico é Deus, que é legislador e que representa a consciência. Do ponto de vista bÃblico, o ser humano é frágil e fraco, mas é um sistema aberto, que pode se desenvolver a ponto de libertar-se. Precisa obedecer a Deus para que possa romper os laços primários e não se sujeitar ao homem.
Historicamente, a obediência se faz em geral com relação ao pai. A fixação é o laço com a mãe, ao sangue e ao solo, em casos extremos, o laço simbiótico, que bloqueia o processo de individuação. A fixação incestuosa é um laço com o passado e um obstáculo ao desenvolvimento total.
Mas o conceito de liberdade, se levado à s últimas conseqüências, seria a sua libertação de Deus?Â
A idéia de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus contém o conceito da igualdade entre eles ou mesmo de sua liberdade em relação à Deus e a idéia humanÃstica de que o homem encerra em si toda a humanidade. Isso se expressa na ideologia nacionalista.
No processo da história, o sujeito faz nascer a si próprio. Quando os humanos tiverem superado a divisão que os separam de seus semelhantes e da natureza, então estarão, realmente, em paz com aqueles de quem se separaram. Para ter paz, o indivÃduo (indiviso) tem que recuperar a unidade. A paz é o resultado de uma modificação interna, pela qual a união substitui a alienação. É a realização da humanização. É a superação das distâncias, é a harmonia e união entre os humanos. Esta nova harmonia se faz também com a natureza. O sujeito deixa de ser ameaçado pela natureza e não deseja mais dominá-la. Torna-se natural e a natureza se torna parte dele. A natureza dentro pessoa deixará de ser mutilada e fora, deixará de ser estéril. (9)
A horda primitiva e Freud (1913-1914):
O totem é o antepassado comum de um clã. O laço totêmico é mais forte do que os laços de sangue ou de famÃlia no sentido moderno. A exogamia é uma instituição relacionada ao totemismo .Â
Em todos os grupos sociais com caracterÃsticas totêmicas, observa-se uma lei contra as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem .
A psicanálise nos ensina que, como resquÃcio de épocas primitivas, a primeira escolha de objeto é incestuosa e que vai desaparecendo à medida que o sujeito cresce. O neurótico tem certo grau de infantilismo psÃquico ou falhou em se libertar dessa condição afetiva da infância ou a ela retornou por inibição ou regressão no desenvolvimento. As fixações incestuosas da libido desempenham o papel principal na vida mental inconsciente do sujeito, como o complexo nuclear da neurose.
A verdadeira origem do tabu está na fonte dos instintos humanos, no temor dos poderes demonÃacos, que se acredita jazer oculto no objeto-tabu, Wundt(1906). “Cuidado com a cólera dos demônios!â€
Pouco a pouco, o tabu ganhou força própria, independente da força dos demônios, e, a partir dele, se desenvolveram normas e costumes da tradição que se transformaram em lei.
Os tabus são proibições da antigüidade que foram impostos de forma violenta por uma geração anterior à outra geração mais nova.
As mais antigas proibições ligadas aos tabus foram:
- Não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto.
Esses devem ter sido os mais antigos e poderosos desejos humanos!
A base do tabu é a ação proibida, para cuja realização existe forte inclinação no inconsciente. É uma proibição primeva imposta forçosamente por alguma autoridade de fora e dirigida contra os anseios mais poderosos a que estão sujeitos os seres humanos. O desejo de violá-lo permanece no inconsciente e aqueles que obedecem ao tabu têm uma atitude ambivalente quanto ao que o tabu proÃbe. O poder mágico do tabu baseia-se na capacidade de provocar tentação e atua como contágio, porque o desejo no inconsciente desloca-se de uma coisa para outra. A renúncia está na base da obediência ao tabu.
Comparando o tabu e a neurose, pode-se compreender as diferentes formas de neurose, sua origem, suas distorções e relações com a instituição social. Assim, a fobia de contato começa na tenra idade, quando o sujeito deseja tocar e encontra a proibição, que não consegue abolir o instinto. O resultado é a repressão do desejo de tocar, mas o impulso e a proibição persistem. DaÃ, a emergência de uma atitude ambivalente. O sujeito deseja tocar (gozo), mas também detesta o ato de tocar.
A histeria é uma caricatura da obra de arte; a neurose obsessiva, da religião; o delÃrio paranóico, do sistema filosófico.
A imagem que um filho tem do pai é investida de poderes excessivos e a desconfiança está ligada à admiração por ele. Quando um paranóico transforma a figura de uma pessoa em perseguidor, está transformando esse em pai e colocando-o em posição que possa ser culpado de todos os seus infortúnios. O ato obsessivo é ostensivamente uma proteção contra o ato proibido. A divergência é que as neuroses são estruturas associais, pois esforçam por conseguir por meios particulares o que a sociedade efetua através do esforço coletivo.
A natureza associal das neuroses tem a sua origem genética em seu propósito mais fundamental que seria fugir de uma realidade insatisfatória para um mundo mais agradável de fantasia. O mundo real acha-se sob a influência da sociedade humana e das instituições criadas coletivamente por ela. Negar a realidade é também afastar-se da comunidade dos homens.
A exogamia seria prevenção do incesto e proteção dos grupos em situação de guerra. As fobias seriam deslocamentos para animais e outros objetos dos medos relacionados aos pais (ambivalência). Se o animal totêmico é o pai: matar o pai e casar com a mãe foram os crimes de Édipo e é o núcleo de toda neurose na infância.
Na horda primeva, o pai era violento e ciumento e guardava todas as fêmeas para si. Expulsava os filhos à medida que cresciam. Certo dia, os irmãos se reuniram, mataram e devoram o pai. Pelo ato de devorar, se identificaram com o pai e a partir daà surgiram as organizações sociais, e com elas, as restrições morais e a religião. Emergiu também o sentimento de culpa entre os filhos e o pai morto se tornou mais forte que o vivo. Os filhos desesperados anularam o próprio ato de violência e proibiram a morte do totem, o substituto do pai, e renunciaram aos frutos, abrindo mão das mulheres, agora libertadas.
Se cada um quisesse, como o pai, possuir todas as mulheres, a nova organização iria à falência. DaÃ, a alternativa, criar-se a lei contra o incesto e renunciar à s mulheres. Assim, salvaram a estrutura social e se tornaram fortes. O pai se transfigura em Deus, glorificado, em tentativa de expiação do homicÃdio cometido. A sociedade patriarcal tornou-se a sociedade sem pai e a famÃlia passou a reconstituir a sociedade primitiva. Cristo, que sacrificou a própria vida por todos os filhos, concedeu a solução para a remissão da culpa de seus irmãos.
Do ponto de vista de Freud, a diferença entre os neuróticos e os humanos primitivos é que aqueles são inibidos em suas ações, ao passo que estes eram desinibidos. Os impulsos convertem-se em ações através das crianças, consideradas polimorfo-perversas. É importante não esquecer que “no princÃpio, foi o atoâ€.(5;
A Antropologia cultural:
O conceito básico subjacente à s teorias de evolução sociocultural é que as sociedades humanas, no curso de longos perÃodos, experimentaram processos simultâneos e mutuamente complementares de autotransformação, um deles responsável pela diversificação e o outro pela homogeneização das culturas.
Os antropólogos referem que a relação entre macho e fêmea foi a mais natural das relações que ocorreram entre homem e mulher. A ajuda mútua foi o elemento caracterizador desta relação desde as suas origens e a reciprocidade foi a condição de sobrevivência da espécie, o que é constatável nas sociedades primitivas.
A cultura passa a ser o instrumento da história que se acrescenta à natureza humana para fins de adaptação.
A ênfase é dada pela ‘diacronia’ da evolução histórica. Segundo esta perspectiva, a famÃlia monogâmica atual é o resultado da lenta evolução de três estágios sucessivos do desenvolvimento familiar:
a- A famÃlia consangüÃnea, que se baseia no casamento recÃproco entre irmãos e irmãs no interior do grupo;
b- A famÃlia punaluana, que se restringe ao casamento de várias irmãs com os maridos de cada uma delas e vice-versa, ao casamento de vários irmãos com as esposas de cada um dos outros, aumentando-se as proibições do incesto;
c- A famÃlia fundada no casal, onde se esforça ainda mais o tabu do incesto, restringindo-se a possibilidade do casamento a até dois indivÃduos de cada vez.
O “avunculado†é a condição de parentesco, que determina o respeito e obediência do sobrinho uterino e o tio materno e assinala uma solução estrutural para o enigma do incesto. A relação avuncular existia tanto nos sistemas matrilinear quanto no patrilinear e a função do tio materno foi interpretada como correlata à função paterna.
Assim, como o problema da sobrevivência, do conforto e da proteção fÃsica foi resolvido mediante a constituição do sistema produtivo e dos instrumentos de trabalho, os problemas da reprodução encontraram solução na instituição da famÃlia, núcleo elementar de parentesco e, portanto, da sociedade.
Para ajudar o recém-nascido humano a ser capaz de enfrentar as vicissitudes da natureza e da sociedade; para imprimir certa lei à s relações sexuais, elemento desagregador da solidariedade entre os membros do grupo; e pelas tensões e rivalidades criadas no interior do grupo, elegeu-se a famÃlia, como uma instituição sagrada.
Portanto, a famÃlia, elevada a uma instituição fundamental, e, cuidadosamente, isolada da história, foi celebrada como uma ‘função principal’, que deveria ser iluminada e defendida em toda a sua indiscutÃvel autoridade.
O “Tabu do Incestoâ€, passou a ser identificado como um momento da passagem do “sexo natural†ao “sexo culturalâ€, como padrão de comportamento em todas as culturas.
Segundo Levy-Strauss(1966), a proibição do incesto foi a regra de reciprocidade por excelência e a exogamia foi a sua expressão socialmente ampliada, que veio assegurar a circulação total e contÃnua dos bens por excelência que o grupo possui, ou seja, suas mulheres e suas filhas.
Essa lei veio apaziguar a cultura, porque, a partir dela, tudo se fez para impedir que guerras entre as tribos, viessem destruir os filhos das filhas dadas em casamento a outros grupos humanos.
Assim, as especulações relativas à essência biológica e mÃtica da famÃlia também foram sendo definitivamente destituÃdas e, com o tabu do incesto, a famÃlia passa a expressar a passagem do fato natural da consangüinidade para o fato cultural da afinidade.
O modelo da famÃlia passou, então, a ser descrito como o grupo social que:
1- Tem a sua origem no casamento.
2- Consiste no marido, mulher e filhos nascidos de sua união e de outros parentes que integrem este núcleo familiar.
3- Os membros da famÃlia são ligados entre si por vÃnculos legais, econômicos, religiosos e outros tipos de deveres e direitos, além de uma precisa rede de proibições sexuais, e um conjunto variável e diferenciado de sentimentos psicológicos, como o amor, raiva, medo e outros.(5)
FamÃlia como pré-história das relações sociais:
O fato cultural para a formação da famÃlia foi a transmissão hereditária dos bens a filhos certos e legÃtimos, assim como o fato da natureza foi a procriação. A famÃlia não é tanto um micro-sistema a ser relacionado com um macro-sistema social, como parte da literatura sociológica tende a mostrar, mas uma estrutura que, mais do qualquer outra, contém em si a esfera da cultura e a esfera da natureza.
O sentido da morte (thanatos) – Quando o chefe de famÃlia ou outro elemento importante deixa de viver, a famÃlia ou o grupo, em certo sentido, começa a morrer… A perda de elementos importante da famÃlia dispersa uma parte da substância do grupo. Os fundamentos materiais e morais da coesão da famÃlia são prejudicados pela morte, na medida em que não existe solução de continuidade na própria essência dos indivÃduos que a compõem. Neste ponto, os rituais e outros processos de socialização salvam a coesão e a solidariedade da famÃlia e do grupo: luto, sepultura, funerais e religião.
O casamento não é somente a ordem compartilhamento da vida, mas, também, a forma de enfrentar em comum e, solidamente, a morte.
Para Freud, o momento da morte está presente na constituição da famÃlia. O impulso agressivo contra o pai é um derivado do instinto de morte. De todas as articulações contraditórias, que tornam a morte presente no âmbito familiar, tanto consciente quanto inconscientemente, a famÃlia torna-se um foco de pulsões destrutivas e autopunitivas, última defesa neurótica contra o progressivo envelhecimento dos cônjuges e contra a ameaça da morte.(5)
O sentido da vida (Eros) – Criar a vida é a única atividade humana que requer a presença de um parceiro.
A reviravolta histórica foi a invenção da famÃlia monogâmica patrilinear, que estabelece a descendência certa e legÃtima para a transmissão hereditária dos bens. A pesquisa antropológica mostrou que a relação de autoridade e dependência sobre a qual se desenvolve o complexo edipiano não é algo absolutamente natural, mas se apóia na desproporção entre o poder do pai e a impotência do filho, determinado pelas formas concretas assumidas nas relações sociais e culturais de cada civilização.
O papel do pai se constituiu como autoridade absoluta e com o poder de deserdar. Por isto, a famÃlia monogâmica deve suas origens à propriedade e a direitos legais.
O fim da pré-história significa uma reavaliação do complexo de Édipo, que deve ser visto como reflexo do terror de Laio. O obscuro presságio de Laio, sÃmbolo que deve ser removido de toda autocracia paterna, é a ameaça inconfessada que todo pai experimenta diante do filho: – a sucessão na vida, nos bens, no sexo e outras.
Em cada geração de filhos, na ambivalente relação de amor e ódio, oculta-se uma realidade angustiante, pois a geração dos pais experimenta na emergência da vida a certeza da caduquice da própria geração e coloca em discussão os seus privilégios no plano do vivido. O complexo de Édipo é o produto do terror autoritário de Laio, negado, invertido e projetado.
Ëdipo que matou o pai foi um criminoso, independentemente, da consciência da própria atuação, mas o crime de Laio não foi experimentado como um delito.
A crise da autoridade estrutural, hoje, se funda no desaparecimento da figura do pai, na decadência do complexo de Édipo, que é um reflexo, também, da decadência do complexo de Laio.(5)
Morte e ressurreição da famÃlia:
O movimento dialético, que desmascara a aparência, socialmente necessária, da legitimação da famÃlia, recorre à s manifestações do simulacro e da dimensão sagrada de eternidade da famÃlia, enquanto emanação da naturalidade e da divindade.
Segundo Nietzsche, a burguesia uniu em férreo triângulo, o amor, o casamento e a sexualidade. No interior deste triângulo, a famÃlia tornou-se a célula do Estado capitalista avançado.
“Marca-se uma coisa a fogo para que reste na memóriaâ€,Nietzscheâ€
A dimensão da liberdade individual é articulada tanto com a falta da liberdade social, como com falta da liberdade natural.Â
À luz de AntÃgona, o princÃpio do amor que nasce e desenvolve na famÃlia é antagônico à injusta autoridade constituÃda e significa o princÃpio da solidariedade e do amor contra o princÃpio autoritário por excelência.
Buscar a superação da famÃlia ‘atual-fetiche’ significa denunciar os aspectos correspondentes do poder hereditário, que tem como motivação estrutural a transmissão dos bens, do privilégio que funda a autocracia, da filiação contra a afinidade. Significa romper a crosta das relações capitalistas de produção, que sufocam a pureza inata das relações humanas.
É a afirmação de que a liberdade de todos é cada vez mais, indissoluvelmente, ligada à felicidade de cada um e vice-versa. O desprezo e a negação da felicidade não são a condição do realismo!(5)
As relações de gênero no tempo contemporâneo:
A monogamia não surge na história como uma espécie de reconciliação entre o homem e a mulher e menos ainda como uma forma mais elevada de famÃlia. Comparece em cena como forma de sujeição de um sexo sobre outro e de proclamação de conflito entre sexos.
Marx e Engels registram em um velho manuscrito, elaborado em 1846:
 ”A primeira divisão do trabalho é a que tem lugar entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos e o primeiro antagonismo de classes a surgir na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher em regime monogâmico e a primeira opressão de classe se manifesta com a opressão do sexo masculino sobre o feminino.“ (7)
A monogamia é o resultado de uma longa progressão histórica, que inaugurou, ao lado da escravidão e da propriedade privada, a antinomia do desenvolvimento, que se realiza a custa da infelicidade e da opressão dos outros. É uma forma celular da sociedade civilizada, através da qual se pode estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que se desenvolvem nessa mesma sociedade.
Mas, a famÃlia monogâmica não se apresentou em todos os lugares e em todos os tempos da mesma forma clássica e rude. Ela fez nascer, também, um novo modelo conjugal, uma mudança de mentalidade, uma conquista moral de amor recÃproco entre os esposos.
Em 1792, na França, é instituÃda a lei do divórcio, uma conquista da mulher que ” deixaria de estar irrevogavelmente submetida aos caprichos e ao humor de seu esposo, tornado arrogante, indiferente e cruel.”
Exigia-se também que a declaração dos direitos do homem se aplicasse igualmente à s mulheres, qualquer que fosse a sua idade e condição. Denunciava-se a lei que excluÃa as mulheres do trono, das partilhas de sucessão e a obrigação das mulheres de renunciarem a seu nome, quando se casavam.
Por outro lado, dizia-se: “O sexo frágil é tão dotado de sensibilidade, tão susceptÃvel a vivas emoções e agitações perigosas, incapaz de refletir que, somente através de uma sólida instrução, que substitua a tendência à frivolidade, à vaidade e à s quimeras, poderão as mulheres tornarem-se aptas a exercerem os seus direitos. Se a natureza destinava a mulher a tarefas maternais e domésticas, por que ensinar-lhes lÃnguas mortas ou ciências abstratas? A educação doméstica bastava para a felicidade das mulheres e de sua famÃlia. “ (3)
Rousseau foi o grande triunfador do século XVIII, justificando a felicidade através do novo modelo familiar, fechado para o exterior e centrado no amor conjugal e parental.(16)
A mulher deveria ser a esposa virtuosa e fiel, mãe até o sacrifÃcio de si mesma. Assim, a felicidade do homem e da sociedade estava garantida. No retrato idÃlico de EmÃlio e Sofia, é lembrado: ” A ele cabe a força, a audácia e a conquista do mundo exterior. A ela, a doçura, a modéstia, as atividades caseiras e o poder sobre o pessoal da casa.”
“Ela deve sofrer em silêncio e dedicar sua vida aos seus, pois tal função é a que a natureza lhe destinou. A mulher reina em seu lar, como o homem no mundo. Ela assume as fadigas e os perigos da maternidade, como ele assume os da guerra e do poder.
 É lançada uma advertência solene:
 ”Assim como veneramos a mãe de famÃlia que encontra a sua felicidade e a sua glória cuidando dos filhos, educando-os, tecendo os trajes dos maridos e aliviando as suas fadigas com o cumprimento dos deveres domésticos, também devemos desprezar e rejeitar a mulher sem vergonha que enverga túnica viril. “
As mulheres, em sua imensa maioria, aceitaram e interiorizaram este novo modelo de relação entre os sexos. Os princÃpios da burguesia ganham a sociedade. Toma-se consciência de que a riqueza de uma nação depende de uma população numerosa.â€São necessários braços que segurem a foice em tempo de paz e o fuzil em tempo de guerraâ€. É importante diminuir a mortalidade infantil, elevada pela falta de higiene e de cuidados maternos.
Filantropos, médicos, padres, moralistas desenvolvem argumentos que convencem as mulheres de permanecerem em casa e amamentar seus filhos, de cuidar deles até que cresçam e de se tornarem esposas e mães admiráveis. Eis que as mulheres são elevadas à categoria de salvadoras da pátria e responsáveis pela nação!
A linguagem da virtude, do coração e das responsabilidades as entusiasmou! Era glorioso encarnar o novo modelo que não admitia qualquer falha. E a famÃlia se fechou cada vez mais na vida privada para se concentrar em tarefas educativas, assegurando a promoção social dos filhos e garantindo a persistência de seu sistema de valores.
Hoje em dia, este modelo ainda é predominante, mas o núcleo familiar tende a reduzir-se pela limitação voluntária do tamanho da prole.
No entanto, o declÃnio deste modelo em favor de um modelo pós-moderno já começou. O projeto romântico que motivou o compromisso afetivo do casal revela-se hoje mais frágil do que os imperativos de linhagem ou de salvaguarda do patrimônio herdado. Assistimos à instabilidade dos casais e à fragmentação do ninho familiar. É o fim do Patriarcado, na sua extensão absoluta e relativa.
A crise da famÃlia assume também aspectos de um acerto de contas, não apenas em face da grosseira opressão que a mulher, mais fraca, depois, os filhos sofreram por parte dos chefes de famÃlia até o inicio desta época, mas também diante da injustiça econômica que nela se praticava, da exploração do trabalho doméstico em uma sociedade que obedecia à lei do mercado.
 A autoridade do pai acaba quando não pode mais garantir, de modo seguro, a vida material da famÃlia e esta não mais consegue proteger os seus membros contra o mundo exterior que pressiona inexoravelmente.
No momento em que se vislumbra a possibilidade da plena realização do direito humano com a emancipação da mulher, obtido graças à emancipação da sociedade, que alcança o máximo de expansão em todos os setores da tecnologia e ciência, assiste-se à crise integral da famÃlia.
Com a liberação feminina e a queda da autoridade paterna, descortinam-se os filhos, crianças e adolescentes, com suas necessidades biológicas, psicológicas e sociológicas, que se transformam, neste século, nas pessoas mais vulneráveis de sofrer as conseqüências mais traumáticas dos distúrbios familiares e sociais.
À queda do patriarcado, desponta o filiarcado. As mulheres alegam que deixaram a famÃlia pelos filhos. É por eles que saÃram em competição com os homens no enfrentamento das tarefas alheias ao lar.
Em um mundo exaurido de suas reservas de sustentação, é na busca de sobrevivência e conforto para a prole que as mulheres abandonaram os próprios filhos. Instaurada a iconoclastia, produzida a morte do poder estrutural de Laio, emerge a crise do complexo de Édipo, em momento pleno de ascensão dos direitos dos filhos.
Os meios de comunicação comandam a nova era. Neste tempo impar da história da humanidade, a experiência tecnológica é projetada no futuro, para ser conquistada no presente, invertendo-se a cronologia histórica dos acontecimentos. E não se trata de um fenômeno isolado, atingindo um grupo populacional restrito, mas se assemelha a uma revolução universal, dentro da qual se confundem todas as nações num bloco compacto e sem limites definidos.
E a humanidade constitui-se hoje em um mundo novo, com caracterÃsticas mutantes, em busca de uma identidade transcendente com todo o espectro de peculiaridades que advém de tal condição. Nesse universo da globalização, a famÃlia se transborda para o espaço público, perdendo a privacidade e a identidade. Assim, galgando-se as fronteiras geográficas, culturais e ideológicas, extinguem-se, também, os pilares éticos de todas as instituições vigentes.
Sob o comando da mÃdia, que determina os novos comportamentos de humanos, tudo passa a ser descartável, inclusive as relações de famÃlia.
Hoje, a palavra que corresponde a “casamento†é “união estávelâ€. A Igreja, se convocada, abençoa o casal e o cartório registra os bens, que, na maioria das vezes, são, somente, os filhos. A rigidez dos papéis sexuais vão se dissipando e os preconceitos e as discriminações sociais vão tomando outras dimensões.
A ascensão recente das minorias garante a pluralidade dos papéis femininos e convence a mulher da sua competência na produção independente. Paralelamente, o fato da superpopulação eleva o estatuto dos homossexuais, uma vez que esses podem amar sem procriar.
A lei externa passa a ser o limite, que antes era colocado pela famÃlia ou grupos sociais fechados.
Dentro deste contexto, inserem-se crianças e adolescentes, em contingente numérico significativo, trazendo como conflito nuclear, o mandato de conquista da própria identidade, em uma sociedade em crise de identidade ideológica, religiosa, polÃtica, econômica, social, cultural e estrutural, buscando no amplo espectro de suas possibilidades e conquistas a sua real finalidade.
Os filhos desta era vão construindo a sua vida com uma dificuldade imensa de se vincular afetivamente com outras pessoas, temerosos de reviver situações anteriores de abandono muito dolorosas.
Na era da informática, preferem conviver com as máquinas, deleitando-se com programas de televisão e computador. Sobrevivem com distúrbios de socialização, seguidos de dificuldade escolar e culminam na adolescência, com condutas sociopáticas, que vão do furto à violência, das dificuldades com a lei à morte no trânsito. A partir da vivência das mais variadas formas de carência afetiva, saem a procura dos pais além dos limites do lar, onde, na verdade, eles se encontram.
Assiste-se, assim, ao nascimento de um novo tipo de crianças:- “os meninos de ruasâ€. Sejam de classe sócio-econômica alta ou baixa, eles só se diferenciam no que fazem e como se vestem. Uns furtam os carros dos pais, outros, as bolsas nas ruas. Uns povoam os “shopings” da cidade, outros ficam nas rodovias. As suas histórias de vida são semelhantes, porque falam do abandono nas mais sofisticadas configurações e nas mais variadas formas de manifestação. São todos filhos de “ famÃlias de ruaâ€! A sociedade está na rua!
Apesar da divulgação de número cada vez maior de “transtornos de conduta†em crianças e adolescentes, nunca se conheceu tanto sobre o ser humano em suas necessidades mais profundas. Os pais, em seus desabafos nos consultórios, relatam que não têm autoridade sobre os filhos, pois os filhos de hoje não “honram Pai e Mãe†e nada têm em comum com aqueles que os geraram. Tudo isto é verdade. Pais e filhos, dentro da sociedade atual, nada têm em comum, porque nunca se encontraram. Os filhos se assemelham à infinidade de babás que tiveram e ao número de programas de televisão que assistiram.
Uma nova consciência emerge rapidamente em fins do século XX e uma revisão das iatrogenias humanas passa a ser publicada antes que se alastre a epidemia do abandono.
Por força de lei, o instinto materno é reascendido e passa a ser ensinado e exercitado, desde a sala de parto até o chamado “Alojamento Conjunto”. O aleitamento materno se torna objeto de campanhas publicitárias, que tentam provar a sua superioridade sobre qualquer outra fórmula láctea. Na educação dos filhos, o amor é receitado em doses suficientemente adequadas ao bom desenvolvimento afetivo do ser humano. Publica-se no Brasil o ESTATUTO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (1990), manual de normas e leis que regem os cuidados parentais, familiares e sociais para o estabelecimento de uma boa saúde e educação para as crianças e adolescentes de forma a se proteger os filhos dos pais e da sociedade em geral. E os pais, perplexos, vão descobrindo, pouco a pouco, a sua valiosa importância na construção da personalidade de seus rebentos.
É preciso repensar o ser humano em todos os seus momentos evolutivos, com suas caracterÃsticas pessoais e idiossincrásicas, e, quaisquer que sejam os avanços ou retrocessos dessa civilização, não perdê-lo jamais como prioridade, qualquer que seja sentido da evolução. (12) .(http://saudedejovens.com.br/)
Referências bibliográficas:
1- ARIÈS, F., FLANDRIN, B. & VEYNE, P. Sexualidades Ocidentais. Editora Contexto. Lisboa, 1983.
2- ARIES, P.. História Social da Criança e da FamÃlia. Editora Guanabara. Rio De Janeiro. 1881.
3- BADINTER, E..Palavras de Homens. Editora Nova Fronteira. Rio De Janeiro.1989.
4- BETTELHEIM,B. A Psicanálise dos Contos de Fada. 6ed. Paz e Terra.1980.
5- CANEVACCI, M..Dialética da FamÃlia. Editora Brasiliense. São Paulo.1987.
6- CHAUI, M. Repressão Sexual. CÃrculo do livro.
7- ENGELS. A Origem da FamÃlia, da Propriedade Privada e do Estado. Editora Escala. São Paulo.
8- FREUD S. Totem e tabu. Edições Standart Brasileira. v.13. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1913.
9- FROMM, E. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Ed. Zahar. 9ºed.1979.
10- GRUNSPUN, H..Assuntos de FamÃlia. Kairus Livraria Editora. São Paulo.1984.
11- HIGHWATER,J. Mito de Sexualidade. Ed. Saraiva.São Paulo. 1º ed.,1992.
12- MAAKAROUN, M. F. Profilaxia do Abandono. In Adolescência. Secretaria Do Estado Da Saúde, S. E.,Coordenação Materno Infantil,1993.http://www.saudedejovens.com.br/
13- MITHEN, S. A pré-história da mente. Editora UNESP. São Paulo. 2002.
14- PLATÃO. Diálogos. 6ed. Cultrix. São Paulo. 1976.
15- RIDLEY, M. O que nos faz humanos. Ed. Record. R.Janeiro. São Paulo. 2004
16- ROUSSEAU, J.-J. EMÃLIO ou Da Educação. Editora Martins Fontes. São Paulo. 1995.
17- Winston. R. Instinto Humano. Ed. Globo. São Paulo. 2006.
*MarÃlia de Freitas Maakaroun: Médica, Pediatra, Psiquiatra da Infância e Adolescência, Professora Doutora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais